Anarquistas cearenses e debutante australiana

Sobre COM OS PUNHOS CERRADOS e O SONHO DE GRETA

COM OS PUNHOS CERRADOS (2014) foi mais uma travessura dos irmãos Luiz e Ricardo Pretti, junto com o primo Pedro Diógenes. Quando o vi na Semana dos Realizadores de 2014, pareceu-me o primeiro longa-manifesto do neo-anarquismo trendy. Ou o segundo, se incluirmos “Riocorrente”, de Paulo Sacramento, nessa mesma correnteza. Os três diretores-atores fazem um trio de jovens anarquistas que transmitem uma rádio pirata e saem às ruas com lenços no rosto para colocar cartas obscenas nas caixas de correio da alta burguesia de Fortaleza. O nome da capital cearense serve já de signo dos poderes do Capital e da Ordem, contra os quais os meninos se insurgem.

O filme tem uma trama típica de policiais mainstream: um patriota direitista e religioso, daqueles bem caricatos, move uma perseguição aos anarquistas e contrata uma strip teaser para seduzi-los e traí-los. O resto é para saber vendo o filme.

Em tom de suposta brincadeira, os Pretti-Parente na verdade falam sério sobre a necessidade de “quebrar o espelho” da democracia e superar o capitalismo à margem do Estado. Mas são lúcidos o suficiente para reconhecer a derrota desse ideário apenas negacionista. O vazio das dunas cearenses é o que lhes sobra depois que a guerra é perdida, restando-lhes somente uma voz clamando no deserto, um companheiro morto no caminho e uma bandeira negra empunhada contra o vento. A lembrança de “Terra em Transe” me parece inevitável. O filme inclui uma emocionada e magnetizante entrevista com o poeta e cineasta Uirá Reis (“Doce Amianto”), leitura de textos de Bakunin (não creditado), James Joyce, Artaud, Elie Faure e Oswald de Andrade, além de diversas canções de inspiração anarquista de variada procedência.

Nisso tudo, concorde-se ou não com o teor do manifesto, ou mesmo com sua amarga conclusão, existe a energia cinematográfica sempre muito interessante dos filmes da Alumbramento. Há sempre ali uma combinação de doçura e fúria, uma engenhosidade na construção das cenas e uma sinceridade de propósitos que não pode deixar de nos tocar.



Para uma menina australiana da década de 1970, não era nada fácil chegar aos 15 anos. Greta é vitima de bullying na escola, cortejada por um garoto aplicadinho e esquisito, e pressionada por pais que parecem saídos de um almanaque de bizarrices. Os origamis e sua caixinha de música mágica não são suficientes para protegê-la dos transtornos da passagem para a vida adulta. Para piorar as coisas, a fim de promovê-la socialmente, sua mãe convida toda a escola para uma festa de 15 anos que simplesmente a apavora.

O SONHO DE GRETA (“Girl Asleep”) promove um encontro de “O Mágico de Oz” com “Alice no País das Maravilhas” nas páginas de Bruno Bettelheim, autor da “Psicanálise dos Contos de Fadas”. A festa de Greta, que ela vai passar na maior parte do tempo desacordada, será uma incursão pelo bosque encantado dos medos e desejos camuflados de uma garota tímida. O horror do pai, a tirania da mãe e a atração não assumida pelo cunhado vão se transfigurar num baile onírico de fantasias e máscaras. Greta é assombrada tanto pelos traumas remotos da infância quanto pela necessidade de se afirmar como mulher, a exemplo da irmã mais velha.

Nesse seu primeiro longa, Rosemary Myers adapta uma peça de teatro juvenil de Matthew Whittet, que fez o papel do pai no palco e na tela. Num estilo similar ao de Wes Anderson, o filme encanta e diverte muito na caracterização da família e dos amigos de Greta. A inserção de letreiros na cenografia é uma curiosidade extremamente simpática. De maneira geral, a caricatura cenográfica e coreográfica dos anos 70, assim como a teatralidade que destaca o esdrúxulo dos personagens, me conquistaram de imediato. Pena que a graça se dilua bastante depois que Greta cruza os umbrais da fantasia. A floresta da imaginação se revela um tanto naïf – apesar de uma sugestão de estupro – e encaminha o delírio para um desfecho inconsistente baseado na troca de gêneros. Psicanalistas talvez façam uma leitura mais afinada com o subtexto desse rito de passagem figurado como pesadelo.

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