A violência de Estado sob prismas distintos

Dois filmes em cartaz abordam temas similares – a violência policial e a pressão sobre inocentes -, mas não podiam ser mais diferentes no tratamento. A começar por suas origens. DETROIT EM REBELIÃO poderá estar na linha de frente dos próximos Oscars, conferindo mais uma vez a Kathryn Bigelow o título de diretora mais politizada do cinema americano. EL AMPARO é um thriller venezuelano formalmente modesto, mas que já obteve considerável repercussão internacional, tendo inclusive vencido dois prêmios na Mostra de São Paulo do ano passado.

Em DETROIT, a ação policial é o centro de tudo, de tal maneira que a violência e a tortura perigam virar um espetáculo em si. Já em EL AMPARO, o massacre que vitimou 14 humildes pescadores não é sequer mostrado, a não ser por rápidas imagens de cobertura documental a posteriori. O foco do filme de Rober Calzadilla está em dois sobreviventes, que passam a ser pressionados, junto com suas famílias, para confirmar a versão oficial que os apontava como guerrilheiros ligados aos colombianos. Não há qualquer cena de violência explícita, mas somente os reflexos do arbítrio sobre as pessoas.

Ainda assim, o filme venezuelano surte efeito tão dramático e a mesma indignação quanto o americano. Um pelo que deixa subentendido e mostra apenas como drama humano, o outro pelo que exibe detalhadamente e apela aos nervos do espectador. De minha parte, acho EL AMPARO bem mais eficiente em seu discurso indireto e nada espetacular.

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Os responsáveis pelo chamado Massacre de El Amparo nunca foram julgados ou punidos. Era 29 de outubro de 1988, governo de Jaime Lusinchi, quando os pescadores foram atacados perto da fronteira com a Colômbia. Os dois sobreviventes (magistralmente interpretados por Vicente Quintero e Giovanni Garcia) ficaram custodiados numa pequena delegacia local enquanto representantes dos militares, da promotoria e do parlamento tentavam comprar sua confissão. O objetivo era caracterizar os pescadores como guerrilheiros a caminho de explodir uma refinaria.

Numa localidade quase miserável, sob o medo de um desenlace ainda pior, as ofertas são tentadoras. O filme se expande para além dos limites da cela para abordar a dor e os dilemas dos parentes das vítimas. As consciências oscilam entre a defesa da inocência dos pescadores e a evidência de que “a verdade não põe comida na mesa”. Por esse caminho, o roteiro de Karin Valecillos atinge camadas mais profundas do que a mera reprodução do acontecimento. A relação entre Chumba e Pinilla no cativeiro é um pequeno tratado sobre como a união fortalece os indivíduos. E o delegado Mendieta (Vicente Peña) se revela um personagem surpreendente, em que pesem algumas inconsistências na sua posição perante forças superiores.

É admirável a forma oblíqua com que EL AMPARO trata momentos cruciais da ação. Além da omissão das cenas do massacre, vale notar como as imagens circulam pelo lugarejo durante a entrevista dos dois homens à televisão. A direção de Rober Calzadilla, nos moldes do neorrealismo italiano, extrai atuações impecáveis tanto dos atores principais, quanto dos moradores da comunidade que participaram como coadjuvantes. A atmosfera marcada pelo calor, os mosquitos e a angústia das pessoas nos transporta inteiramente para a paisagem emocional de El Amparo.

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Nunca se soube exatamente tudo o que se passou nos quartos do Motel Algiers em 25 de julho de 1967. DETROIT EM REBELIÃO se baseia em testemunhos, documentos e provavelmente algumas deduções para detalhar o episódio em que três jovens negros terminaram mortos e outros quatro, além de duas moças brancas, foram brutalmente espancados por policiais.

Kathryn Bigelow usa uma estética de newsreel (hoje seria midiativismo) e uma montagem nervosa para injetar adrenalina e nos colocar no centro da ação. O som é particularmente sugestivo, com uma constante algaravia de gritos, tiros, latidos, sirenes.

São três atos bem delimitados. No primeiro, a batida policial num bar de negros dá uma ideia dos choques, saques e destruição que abalavam a cidade e introduz alguns personagens. No segundo, a invasão do motel depois que um rapaz faz disparos no ar com um revólver de partida (de corridas) e o longo interrogatório dos suspeitos em busca de um suposto sniper. No terceiro ato, o julgamento dos policiais, que escandalosamente concluiu pela inocência.

É no segundo ato que Bigelow concentra os objetivos do filme: causar indignação contra a agressividade, o sadismo e a pusilanimidade dos policiais brancos racistas. Não é fácil assistir aos espancamentos, ameaças e torturas psicológicas, a ponto de alguns momentos chegarem perto de uma certa pornografia da violência. A caracterização de um policial especialmente repulsivo se contrapõe ao outro personagem central, um cantor do grupo de soul The Dramatics que desde então nunca mais cantaria “para brancos”.

Além de narrar o caso em pormenores, o filme traz à tona algumas razões profundas daquilo que então colocava em chamas as ruas de Detroit. A intolerância com a conquista, pelos negros, de direitos civis inéditos e até do amor de brancas estava na raiz de incidentes como o do Motel Algiers. Com isso, e apesar dos excessos de pretenso realismo, DETROIT chega em bom momento para se discutir a volta dos supremacistas brancos às recentes manchetes da América de Trump.

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