A igreja do diabo

Em A COMÉDIA DIVINA, Toni Venturi se aventura por uma seara alternativa das comédias populares, a do humor crítico. A expansão das igrejas evangélicas, a aliança da mídia televisiva com o grande capital e a maleabilidade da chamada opinião pública são alguns alvos que ele mira ao se basear livremente no conto A Igreja do Diabo, de Machado de Assis.

Este é um conto filosófico de estirpe voltaireana, em que o demônio, cansado de atuar no varejo, resolve criar a sua própria igreja na Terra para desafiar a hegemonia de Deus. A iniciativa prospera pelo estímulo às fraquezas humanas até o ponto em que a volubilidade e as contradições dos mesmo homens começam a remeter os fiéis de volta à prática de virtudes.

Na adaptação concebida por Venturi e três corroteiristas – entre eles o habilidoso José Roberto Torero –, a história de Machado é transposta para o mundo das corporações e da mídia de massa. O capiroto é vivido com elegante e eficiente propriedade por Murilo Rosa. Deus é mulher e negra, encarnada por Zezé Motta, e o Anjo Gabriel é evidentemente gay. Para provar que o céu é um amontoado de clichês e são os pecados que fazem o mundo girar, o capeta se associa a uma rede de televisão e promove milagres como a multiplicação dos hamburgers e das latinhas de refrigerante. Em vez de coletar, o novo pastor distribui dinheiro no templo. Na TV, o Satan Night Show e o In-quiz-ition Show fazem sucesso até que essa dominação progressiva seja ameaçada pela campanha #ForaSatanás e pela eclosão de uma história de amor.

O gume satírico de A COMÉDIA DIVINA rende boas gags e fustiga com certa veemência algumas falácias da nossa era de engodos e moralismo hipócrita. Quando desce ao patamar de um humor mais chanchadeiro, nem sempre é tão divertido quanto pretendia. O que não falta é capricho na produção, na direção de arte, nos efeitos visuais e na pós-produção sonora, que confere um upgrade fundamental às peripécias do demo. Vale ressaltar, ainda, a boa atuação do elenco coadjuvante, com destaque para Dalton Vigh como o apresentador canalha e a participação sempre precisa e engraçada de Débora Duboc no papel da produtora de TV.

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