Duas irmãs e uma menina

Sobre ENTRE IRMÃS e A MENINA ÍNDIGO

O maior defeito de ENTRE IRMÃS é estar passando nos cinemas. Não costumo levar em conta o suporte quando se trata de filme, mas nesse caso é tão evidente que o longa de Breno Silveira foi feito como minissérie de televisão que sua presença na tela grande parece uma vassoura tentando fingir que é uma laranja.

O acúmulo de eventos na história das duas irmãs que se separam dolorosamente – uma entra para o cangaço, a outra para a alta sociedade do Recife – torna tudo episódico demais, adequado portanto a uma visão em capítulos. Esse tipo de estrutura, somado ao desejo de agradar ininterruptamente, responde pela overdose de música, de piques melodramáticos e de paralelismos forçados para sublinhar a bifurcação dos destinos das duas.

O filme se baseia no romance “A Costureira e o Cangaceiro” (The Seamstress), de Frances de Pontes Peebles, autora nascida em Pernambuco e radicada nos EUA desde criança. Ela se inspirou em histórias da família e do cangaço. Não li o livro, mas, a julgar pelo filme, Frances reuniu ingredientes clássicos do gênero, como uma visão ao mesmo tempo nobre e violenta do “capitão” cangaceiro e os preconceitos da elite urbana nordestina contra o mundo rural.

O roteiro de Patrícia Andrade incorpora alguns equívocos que talvez venham do livro, como mostrar cangaceiros a cavalo, quando eles usualmente se deslocavam a pé (Lima Barreto usou dessa licença em “O Cangaceiro” para chegar mais perto do western). Outros são de adaptação mesmo, como as mudanças muito bruscas na caracterização da romântica Emília (Marjorie Estiano). Já a visão simpática das relações homossexuais, considerando o contexto dos anos 1940, soam mais como mensagem progressista da Globo atual do que como veracidade histórica.

Ainda que pareça estar fora do lugar e longo demais para uma sessão de cinema, ENTRE IRMÃS não é um espetáculo desprezível. Marjorie e Nanda Costa (esta como a cascuda Luiza) estão ótimas, a produção é caprichada pelos padrões televisivos e algumas cenas são muito bem resolvidas – particularmente o casamento do cangaceiro com a costureira e o ensaio de romance entre Emília e Lindalva.

Não foi ainda dessa vez que Breno Silveira reeditou a felicidade de “Dois Filhos de Francisco”, mas tampouco caiu ao nível de “À Beira do Caminho” e “Era uma Vez”.



A MENINA ÍNDIGO me pareceu um cruzamento de três filmes:

1. “My Kid Could Paint That”, o documentário sobre a menina americana Marla Omstead, de 4 anos, que se tornou um fenômeno na pintura expressionista-abstrata.
2. “A Terceira Margem do Rio”, na parte relativa ao conto “A Menina de Lá”, de Guimarães Rosa, em que Nininha opera milagres, entre eles a cura de doenças.
3. “Operação Cupido”, em que duas irmãs gêmeas se unem para tentar reconciliar os pais separados.

Wagner de Assis pega bem mais leve no espiritualismo do que em “Nosso Lar”. Os passes mediúnicos não são apresentados como tal, a existência de Deus é mais citada do que diretamente exemplificada, e as boas intenções ganham tintas de amor ao planeta. É curioso que a precocidade pollockiana da pintorinha não chame a atenção de ninguém, e ela se torne celebridade somente pelas curas. Isso diz muito sobre o que está em foco no filme: não a arte, mas o misticismo.

De resto, é uma baboseira colorida e melosa, desaconselhável para diabéticos e avessos ao abstracionismo.

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