O teatro da memória e do esquecimento

Duas idades de um mesmo personagem se encontram numa dobra do tempo em QUASE MEMÓRIA. Esse personagem é Carlos Heitor Cony, autor do romance original, que se põe em cena duplamente para recordar-se do passado e principalmente da figura paterna. Mas esse personagem é também Ruy Guerra, que aos 86 anos continua um jovem e ousado cineasta. A adaptação que ele fez do livro de Cony tem, ao mesmo tempo, a gravidade do velho que se bate nos desvãos da memória precária – o Carlos maduro do filme – e a euforia do pai relembrado como um inventor clownesco, mitômano e aventureiro apaixonado (João Miguel em estado de graça).

Uma assumida inflexão teatral anima esse 14º longa de Ruy. É numa sala-palco, posteriormente dotada de um telão eletrônico, que o jovem e o velho Carlos somam suas lembranças e esquecimentos para remontar o passado da família. As lembranças, por sua vez, introduzidas por imagens distorcidas, logo ganham formato, colorações e gestual teatrais, como a indicar que o ato de lembrar é sempre uma reencenação, uma falsificação. Ao mesmo tempo, esse teatro da memória é recriado por um trabalho de câmera minuciosa e ludicamente coreografado, e por uma montagem que dinamiza os pontos de vista para além das convenções do teatro. Coroando tudo, um tecido operístico (paixão do pai) lança mais uma camada de tempo e de significados.

“Onde há um contador (de histórias), não existe o acaso”, diz a certa altura o texto de Cony, que é também um sinuoso tratado de metalinguagem e paradoxo temporal. Enquanto os dois Carlos conversam e tomam uísque, a falta de memória do velho protege o jovem de conhecer o seu futuro. Mas, aos poucos, reconduzido pelas lembranças ainda frescas do jovem, o velho vai recobrando suas reminiscências, processo que culmina com um eletrizante monólogo de Tony Ramos. Ruy Guerra, dublando a voz de um sapo de pântano, assume o papel desse contador de imagens que não se contenta com a literalidade. QUASE MEMÓRIA é a invenção que atravessa o tempo e as idades para demolir a clausura do presente. Um filme espantoso.

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