A água e o mundo

Os filmes AOS TEUS OLHOS e SUBMERSÃO têm em comum metáforas com a água e o desejo de falar sobre o mundo atual 

Com esse título evasivo de comédia romântica, AOS TEUS OLHOS lida com um assunto grave do momento que atravessamos. A síndrome do denuncismo, a pressa da condenação e a paranoia do assédio sexual são partes de uma nova onda conservadora que atingiu a política e os costumes não só no Brasil, como no mundo. O que era para ser uma saudável aplicação do politicamente correto virou uma caçada e um paroxismo de intolerância em relação a qualquer desvio da norma.

O filme de Carolina Jabor, baseado na peça O Princípio de Arquimedes, de autor catalão, preserva a complexidade do tema. Basta ver como o pai do menino (Marco Ricca) e a diretora do clube (Malu Galli) oscilam na posição assumida perante a acusação de pedofilia feita contra Rubens, o professor de natação (Daniel Oliveira). Em contrapartida, a mãe (Stella Rabelo) encarna a fúria acusatória tão em voga mediante a divulgação numa rede social. O acusado, por sua vez, fragiliza-se pela inércia em se defender (como acontecia no dinamarquês A Caça) e, perante o espectador, pela dubiedade nas duas vezes em que relata o acontecido entre ele e o aluno no vestiário.

Nisso vai uma certa manipulação do espectador para que ele escolha em quê acreditar e faça (ou não) seu próprio julgamento. Acontece, porém, que o julgamento é o que menos importa. Mais interessante é ver o mecanismo acionado a partir de uma queixa infantil nebulosa, que leva à destruição de uma reputação antes mesmo de ser investigada. Como um lobo voraz, a sociedade está faminta de justiçamentos e incriminações.

Carolina Jabor confirma o gosto por uma dramaturgia aguda, já demonstrado em seu longa anterior, Boa Sorte, que lidava com psiquiatria, amor e proximidade da morte. Reitera também uma boa direção de atores e um grande cuidado com as imagens. AOS TEUS OLHOS se ressente de um alongamento às vezes artificial das tomadas e um desfecho excessivamente reticente, mas dá conta razoavelmente de sua indagação social.



Ele já teve muita, mas hoje Wim Wenders é um autor em busca de uma personalidade. Tem feito ótimos documentários, mas naufraga fragorosamente nos ficcionais. SUBMERSÃO é mais uma tentativa de fazer algo “diferente” – o que, no caso de Wenders, significa derrapar na pretensão ou na mediocridade. Nada mais postiço e careta do que essa história de dois recém-apaixonados que se separam por conta de suas missões perigosas. Dos figurinos de mergulho aos diálogos cheios de metáforas e citações, tudo carece de legitimidade.

A biomatemática Danny (Alicia Vikander) prepara-se para uma pesquisa arriscada na mais profunda camada do mar. O agente secreto James More (James McAvoy) vai investigar ações da Al Qaeda na Somália e cai prisioneiro de jihadistas africanos. Eles estão ligados por filosofices sobre a água e por um amor súbito e recente que parece conectá-los mesmo a uma distância incomunicável.

Wenders trata o assunto com o capricho formal de sempre, mas sem um mínimo de consistência dramática. Os clichês se multiplicam, entre barbaridades do Estado Islâmico e literatices trocadas pelos dois amantes. Quando eles passam do estágio de sedução pseudo-charmosa, mas muito aborrecida, para a separação aflitiva em lugares antípodas do mundo, a coisa periga desandar para a fantasia sobrenatural. Pode existir vida onde não há luz? A solidão e o isolamento são minorados pelo desejo de amar? Que riscos pode-se correr para salvar a espécie humana?

A leviandade com que essas questões supostamente metafísicas são espargidas no filme o torna ao mesmo tempo pretensioso e medíocre. A bússola de Wenders anda comprometida.

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