O índio que perdeu a alma

Existem muitas maneiras de mostrar um etnocídio. Uma delas é expondo a ação etnocida enquanto ela acontece. É o caso, por exemplo, de Martírio, de Vincent Carelli. Outra é colhendo com atenção e sensibilidade os seus resultados. É isso o que faz EX-PAJÉ, de Luiz Bolognesi.

Em sua calma observação da vida dos índios Paiter-Suruí, em algum lugar de Rondônia, Bolognesi mapeia a descaracterização cultural do grupo e a melancolia que acompanha esse processo. A figura de Perpera Suruí, o ex-pajé, é não mais que um eixo em torno do qual se organiza a mirada mais ampla do filme.

Numa das primeiras cenas, o vemos receber um volumoso estudo do antropólogo Cédric Yvinec sobre sua tribo. Em francês. Perpera, que não fala sequer o português, parece hoje um homem apartado de si mesmo, tantas são as vezes que o filme o enfoca com o olhar perdido e coberto de silêncio. Sua ascendência espiritual sobre os suruí foi sabotada pelo pastor evangélico (americano) que catequizou os índios e estigmatizou o estatuto do pajé como “coisa do diabo”.

Perpera acabou entrando para a igreja, onde desempenha funções de conservação. Mal ajambrado dentro de uma roupa de ajudante de pastor, fazendo compras no supermercado ou utilizando uma máquina de lavar, ele é a imagem acabada de uma certa tristeza, a de quem deixou a alma pelo caminho. Não consegue dormir no escuro porque a culpa em relação à igreja lhe vem sob a forma de surras dos espíritos da floresta. Quando é instado a curar a cunhada mordida de cobra, ele hesita penosamente antes de apelar ao espírito Goãh Ney.

As histórias de outros tempos, antes do contato com o homem branco (em 1969), servem agora para embalar o sono das crianças. Isso quando elas não estão ocupadas com seus celulares e games de caça. O Facebook  serve tanto para fofocas quanto para divulgar denúncias da ação predatória dos madeireiros.

Os Paiter-Suruí vivem num limbo entre duas civilizações, assim como o índio há pouco retratado ficcionalmente por Sérgio Andrade e Fábio Baldo em Antes o Tempo não Acabava. Nesse quadro, o papel da igreja evangélica tem sido um dos mais nefastos, pois ataca o cerne da espiritualidade indígena. Lúcia Murat e Rodrigo Hinrischen também trataram do assunto em A Nação que não Esperou por Deus. Em EX-PAJÉ, é particularmente perturbadora a sequência em que ouvimos uma índia clamar pela ajuda do “Senhor” dentro da igreja.

Bolognesi fez um filme de grande e sutil eficácia. Seus planos fixos, bem compostos e bem iluminados (fotografia de Pedro J. Márquez) informam sobre a adulteração do cotidiano indígena enquanto também sugerem uma temporalidade e uma organização do mundo que seriam próprias de sua condição original. O uso criterioso da tela panorâmica desenha triângulos frequentes na composição das imagens e produz epifanias de luz e natureza.

Embora se apresente como um documentário, EX-PAJÉ opera numa fronteira às vezes indiscernível entre observação e realidade reconstituída, flagrante e auto-encenação. Talvez por isso vejo um parentesco oblíquo com os filmes do tailandês Apichatpong Weerasethakul, nos quais o mágico está a um passo de se materializar em meio ao banal da vida, junto à selva e aos espíritos.

Quando o filme foi exibido no Festival de Berlim e ganhou uma menção especial do júri da Mostra Panorama, a equipe e dois índios protagonistas divulgaram o manifesto “Mais pajés, menos intolerância”. Leia no final desta matéria da Carta Capital.

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