O Brasil que nunca saiu da escravidão

O NÓ DO DIABO está em cartaz diariamente às 19h50 no Instituto Moreira Salles – Rio. Longa-metragem dividido em cinco episódios a ser apresentado também como minissérie de TV, é uma boa surpresa vinda da produtora Vermelho Profundo, de Campina Grande (PB). Quatro diretores assinam roteiro e direção dos capítulos, que no entanto apresentam certa unidade de estilo e coerência temática. É mais um exemplo bem-sucedido do filme de terror brasileiro contemporâneo, com a qualidade extra de ser também um possante comentário social.

Poderia ter como subtítulo “O Brasil que nunca saiu da escravidão”. Cada episódio retrata situações de violência racista e classista em regressão temporal, de 2018 a 1871. Há, ainda, dois elementos de ligação entre todas as épocas: o sangue e a figura imutável do velho Vieira (Fernando Teixeira), símbolo de um país que não muda em suas estruturas mais profundas.

São escravos em fuga de ou para o quilombo, irmãs pretas mantidas na prostituição e nos ferros mesmo depois da suposta abolição, empregados domésticos dos anos 1980 enredados numa trama sobrenatural com a família dos patrões e um ex-policial enlouquecido de ódio contra os moradores de uma comunidade que supostamente ameaçam invadir a fazenda dos Vieira nos dias atuais. A intolerância atravessa os tempos e chega a envolver sucedâneos dos excluídos de outrora, que são os moradores de favelas, os jovens gays e até a esquerda por ocasião do impeachment de Dilma.

O choque entre os dois lados não tem vencedores claros, nem são nítidas as fronteiras entre o real e o fantástico. O filme faz bom uso dos códigos do gênero, sem apelar para sustos banais. A narrativa é eminentemente visual e tudo funciona a contento no que diz respeito a fotografia, aproveitamento das incríveis locações no sertão paraibano, sugestões sonoras e direção de atores. Se o penúltimo episódio se alonga um pouco e o último soa mais verboso e rígido que a média, isso não chega a prejudicar a fruição desse filme envolvente e muito bem acabado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s