A graça de ajudar

AS INVISÍVEIS

Numa cena de O Paraíso Deve Ser Aqui, uma ambulância estaciona junto a um morador de rua e lhe serve uma refeição com escolhas num menu variado. Elia Suleiman usava da sátira, mas não deixava de refletir a qualidade invejável da assistência francesa aos clochards. O sistema real, contudo, não admite paternalismo. O amparo visa a rápida reintegração das pessoas no meio social. AS INVISÍVEIS (Les Invisibles) conta a história de um centro de acolhimento diurno de mulheres que não consegue atingir esses objetivos com a rapidez desejável. Por isso está ameaçado de fechar.

A simpática comédia de Louis-Julien Petit, adaptada de livro de Claire Lajeunie, trata da distância fundamental entre a assistência burocrática encampada pelo estado e a empatia humana existente entre um grupo de voluntárias e suas assistidas. Juntas, elas improvisam um programa expresso de reintegração, que consiste em descobrir a vocação de cada sem-teto e tentar colocá-las no mercado de trabalho – e eventualmente na rota de um romance.

Os workshops e sessões de psicodrama dão margem a situações e diálogos hilários, sem medo de agenciar as excentricidades das personagens. Descobre-se, então, a graça de ajudar e ser ajudado. É possível encontrar humor até na compaixão. Com a particularidade que, no mesmo processo, também as voluntárias conseguem algum refrigério para suas carências. Mas quando tudo se encaminha para o modelo do feel good movie, eis que a dureza da realidade se impõe.

Grande parte do apelo do filme vem do casting excepcional e da direção inspirada, que reúne e nivela atrizes profissionais e ex-moradoras de rua. As personagens dessas últimas atendem por apelidos como Brigitte Bardot, Edith Piaf e La Cicciolina. Elas são invisíveis para a sociedade, mas aqui, mediante um relooking e a redescoberta de suas potencialidades, se revelam mulheres apreciáveis.

2 comentários sobre “A graça de ajudar

  1. Não vi o filme, mas tomo a liberdade de meter o meu bedelho no assunto, tendo em vista que a gravidade do tema às vezes passa longe da nossa percepção periférica, sobretudo para os turistas estrangeiros e para todos que não vivem o cotidiano das ruas parisienses. Diante disso, gostaria de informar aos amigos do blog que, segundo dados do jornal Le Monde, de 13.03.19, o mais lido da França, de 2012 a 2016, morreram nas ruas de Paris cerca de 13.000 pessoas, sem que esse drama sensibilizasse a Igreja ou os poderosos daquele grande país, o que não deixa de ser um escândalo alarmante e assustador, confirmando, assim, de forma inquestionável, os tempos de barbárie criminosa que estamos vivendo.
    Nelson Bravo.

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