Uma família transburguesa

NÓS, série do Canal Brasil e Globosat Play

Por absoluta falta de tempo, não costumo ver séries. Sei que perco muito com isso, mas simplesmente não consigo. Ainda assim, abri uma fresta para ver NÓS, a nova série criada por David França Mendes e Rodrigo Ferrari que está na Globosat Play e no Canal Brasil Play. São apenas seis episódios de 22 minutos, temporada única. Ou seja, vê-se como um filme de longa metragem.

David é um craque da escrita de séries, assunto sobre o qual costuma dar cursos. É autor de A Garota da Moto e Quase Anônimos, foi supervisor de roteiro de Escola de Gênios e integrou a equipe de criação de Copa Hotel. Maneja com perícia os tempos dramáticos e conhece os segredos do sequenciamento. Isso tudo está presente em NÓS, aplicado a um menu temático ousado. Quase toda a ação se passa numa casa habitada por uma família que mais parece um centro de atendimento a pessoas de sexualidade complexa.

O psicoterapeuta Romeu (Fernando Eiras) deixou a esposa há dez anos para se casar com Lúcia (Fabia Mirassos), advogada trans que atende a pessoas como ela. Recentemente, o casal adotou Manu (Maria Léo Araruna), jovem trans espancada pelo pai biológico e que se autodeprecia na prostituição. A casa ainda abriga um maquiador (Gustavo Falcão) que fotografa homens em crossdressing clandestino.

O melodrama evolui à medida que os personagens vão descobrindo as atividades ocultas e os fetiches uns dos outros, numa linha que me trouxe à lembrança alguns filmes de Fassbinder, especialmente Num Ano de 13 Luas. Com menos tragicidade e um pouco mais de luz. O conceito de “sexualidade fluida” norteia as escolhas, compulsões e arranjos no interior da família. A dramaturgia é auxiliada por uma série de comentários apresentados sob a forma de monólogos interiores ou de vinhetas surrealistas que corporificam o pensamento das figuras em cena.

O padrão é de cenas curtas, formadas por planos de longa duração e separadas por blocos de tela preta. A fragmentação e as elipses ajudam na sintetização das ações e dos tempos, assim como nas diversas transições por que passa a consciência dos personagens. A estética é refinada e o elenco está perfeito sob a direção de Anne Pinheiro Guimarães e Gigi Soares.

NÓS põe em discussão a ideia de normalidade cis e propõe uma imagem problematizada (ou ampliada?) da família burguesa. Não posso dizer que me animou a ver outras séries, mas sinto que empreguei bem essas duas horas de audácia na televisão.

NÓS pode ser vista aqui até 15 de setembro

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