Lula na panela de polenta

LULA LÁ: DE FORA PRA DENTRO

Não tem pra ninguém. Queiram ou não seus detratores, Luiz Inácio Lula da Silva é o grande personagem da história brasileira de fins dos anos 1970 até a atualidade. Se não bastassem os fatos, o cinema também pode dar provas disso.

Está correndo os festivais um novo documentário sobre ele, realizado pela jornalista Mariana Vitarelli Alessi. Lula Lá: de Fora pra Dentro já foi exibido no Marina del Rey Film Festival, em Los Angeles, e no Festival Internacional de Direitos Humanos de Sucre (Bolívia). Citizen Lula está também na programação do Global Indie Film Fest, em setembro no Reino Unido, e do Seattle Latino Film Festival (EUA), em outubro.

Lula personagem de cinema já conta com um currículo invejável. O livro Lula no Documentário Brasileiro, de Marina Soler Jorge (Ed. Unicamp, 2011) analisa suas aparições de protagonista em cinco filmes, da época das greves no ABC paulista à eleição de 2002: Greve!, de João Batista de Andrade (1979), ABC da Greve, de Leon Hirszman (1979/2007), Linha de Montagem, de Renato Tapajós (1982), Peões, de Eduardo Coutinho (2004), e Entreatos, de João Moreira Salles (2004).

A isso se somam o curta A, B, C, Brasil, de Sérgio Péo (1980), a biografia encenada Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto e Marcelo Santiago (2009) e o mais recente 3 Refeições, de Maria Maia (2020), que documentou a Caravana da Cidadania de 1993, quando Lula percorreu o país de Garanhuns (PE) a São Paulo. A biografia escrita por Fernando Morais, em vias de ser lançada, coroa uma bibliografia também extensa sobre o ex- e provável futuro presidente.

Lula Lá: de Fora pra Dentro é um dossiê extenso (talvez mais extenso do que deveria ser) sobre a chegada de Lula à presidência da República, as conquistas do seu governo, a passagem do bastão para Dilma Rousseff, o golpe de 2016, a Lava Jato e a prisão de Lula, a sua libertação 580 dias depois e o novo golpe que o tornou inelegível em 2018. O filme não alcança a situação atual, em que a “Jararaca” demonstra sua resiliência e se reposiciona como líder popular incontestável.

Mariana Vitarelli Alessi, responsável também pela montagem do filme, procura ecoar a capilaridade da penetração de Lula articulando falas de populares (vendedores de rua, cozinheira, DJ, repentistas) e de figuras célebres da política e da cultura, como Dilma, Jessé Souza, Tereza Cruvinel, Leonardo Boff, Otto e muitos outros. Além, é claro, do próprio Lula, numa entrevista exclusiva em que ele discorre sobre sua confiança na democracia, na Justiça, na representatividade popular e – por que não? – em si próprio como cidadão capaz de fazer o melhor para o Brasil. O professor Cândido Mendes dá o mote que gerou o título do documentário: “Lula era o país de fora que veio para dentro e trouxe os de fora para dentro do país”.

A metragem de 141 minutos bem poderia ser reduzida mediante a eliminação de muitas redundâncias na celebração dos feitos dos governos Lula e Dilma na transferência de renda, no acesso ao consumo e à educação, na auto-estima dos brasileiros e no lugar internacional do país. Quando atinge o período do golpe e os efeitos da Lava Jato, o conjunto de depoimentos ganha gume mais crítico, sem meias palavras para o papel da mídia golpista (Globo à frente) e tanto reprovações quanto defesas das alianças e composições que marcaram os governos do PT. Ao comentar os protestos contra o partido, Lula se sai com mais uma de suas metáforas impagáveis: “A democracia é como uma panela de polenta no fogo. Fica lá borbulhando e soltando bolhas que queimam nosso rosto, nosso peito. Mas aquilo faz parte da polenta”.

A tentativa de desconstrução da figura pública e pessoal de Lula é analisada como obra das elites inconformadas com a ascensão das classes menos favorecidas. Se isso é sobejamente sabido por quem conhece o funcionamento da sociedade brasileira, é importante que chegue ao discernimento do público estrangeiro que está vendo o filme nos festivais internacionais. Por aqui, o documentário de Mariana corre o risco de falar para uma plateia de convertidos. Romper essa bolha exigirá um esforço especial de posicionamento do filme no mercado.

De qualquer modo, o arco dramático da presença de Lula na história recente brasileira está exposto com riqueza de informações. Um novo ciclo histórico pode estar se abrindo com a Vaza Jato e o retorno do filho de Caetés ao proscênio da política. O ano de 2022 dirá se Chico César estava certo quando afirmou que o governo Lula foi um “momento utópico” na história brasileira.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s