Festival do Rio: “Medusa”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

O crescimento do fundamentalismo evangélico sobre o imaginário e a conduta de grande parcela da população brasileira já reverteu num filão de fabulações no cinema. São filmes em que a realidade se transfigura em fantasias entre o cômico e o assustador. Depois dos relativamente recentes Divino Amor, de Gabriel Mascaro, e A Comédia Divina, de Toni Venturi, é a vez de Anita Rocha da Silveira apresentar Medusa, cujo título se inspira no mito da Medusa, mulher transformada em monstro pela deusa Atena por ter se deitado com Poseidon.

Mari (Mari Oliveira) integra o grupo As Preciosas, composto de patricinhas que fazem números musicais num templo evangélico e cultuam o Pastor Guilherme (Thiago Fragoso), em campanha para um cargo político. Fora da igreja, o rosto coberto por máscaras, elas agridem mulheres consideradas “pecadoras”, que resistem a “aceitar Jesus”. As agressões se concentram no rosto, uma vez que o culto religioso se faz em paralelo ao culto da aparência, da beleza careta de moças “belas, recatadas e do lar”. A contraparte masculina do bando é o pequeno exército de Vigilantes do Sião, cuja missão é similar.

No centro do roteiro original, assinado pela própria diretora, está o percurso de Mari entre o fanatismo em grupo e as tentações (“espíritos obsessores”) que lhe fustigam individualmente. Marcada por sucessivos ferimentos no rosto, ela perde o emprego numa clínica estética e passa a trabalhar num hospital para pacientes comatosos. Ali ela pretende encontrar e fotografar Melissa (Bruna Linzmeyer), garota que teve o rosto horrivelmente transfigurado pelas Preciosas e virou uma espécie de troféu de caça.

Anita Rocha da Silveira sabe que a aparência não é tudo, mas se mostra extremamente cuidadosa com a forma e o acabamento de seus filmes (vide Mate-me por Favor, onde já se falava de ascensão do conservadorismo e igrejas evangélicas). Medusa é um dos filmes mais bem-sucedidos esteticamente no cinema brasileiro recente. O trabalho de pós-produção é pesado, em acréscimo à fotografia de João Atala e à direção de arte de Dina Salem Levy. A palheta de luzes e cores, dominada por verdes (a cor da Medusa), azuis, vermelhos e rosas fosforescentes, cria um sentido de irrealidade para aquele mundo de moralismo cosmético e pulsões violentas derivadas do erotismo reprimido. O som de Bernardo Uzeda (responsável também pela trilha musical, junto à diretora) infunde um estado constante de apreensão, com espaços de fuga para o pop.

São esparsas as referências à atualidade brasileira – e vamos incluir aí o fato de a estrelinha fanática se chamar Michele (Lara Tremouroux). O filme opera esse universo paralelo num misto de sátira, musical e filme de terror. Há um ponto em que as várias linhas narrativas se atropelam um pouco, e não se pode dizer que todas caminham para um desfecho satisfatório. A ideia de uma libertação histriônica demais pode soar, além de um tanto óbvia, controvertida dentro de um ideário feminista.

Medusa corre o risco dos filmes concebidos com muito apetite e talvez um pouco de desmesura. Mas antes isso do que o bom comportamento de um cinema recatado e do lar.

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