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Pílulas críticas sobre MATE-ME POR FAVOR, OLYMPIA 2016 e DESCULPE O TRANSTORNO. Nos três filmes destaca-se a construção de uma ideia de Rio de Janeiro.

Na primeira cena de seu longa de estreia, MATE-ME POR FAVOR, Anita Rocha da Silveira arrasta o espectador para uma pista falsa. Moça sai de uma festa e caminha por uma área deserta e escura da Barra da Tijuca até perceber que está sendo seguida e, por fim, atacada por alguém que não vemos. O que parece então ser um thriller de terror adolescente vai aos poucos tomar uma vereda diferente, uma variante mais psicológica do gênero. Estamos numa Barra insular, divorciada do resto da cidade, habitada apenas por jovens (nenhum adulto dá as caras no filme), representada por condomínios, escolas, festas e lugares ermos. Sem falar numa estranha igreja de evangélicos funk, também frequentada somente pela meninada.

Uma sucessão de estupros seguidos de assassinato nos descampados do bairro ecoa na imaginação um tanto lúgubre das patricinhas digitais. Erotismo mórbido, fascinação pela violência, masoquismo juvenil, bullying, paranoias e mistificação religiosa se misturam num novo tipo de conservadorismo que não é estranho à situação real de uma classe média urbana nutrida na alienação. Esse caldo cultural vai se refletir na psique da protagonista Bia (Valentina Herszage), cujo comportamento evolui para uma instabilidade inquietante. O filme se inspira, entre outras coisas, no assassinato da atriz Daniella Perez.

Contando com um conjunto de elenco muito bem preparado, Anita (neta da Dra. Nise da Silveira) demonstra completo domínio de uma linguagem inventiva e contemporânea. O naturalismo das atuações é frequentemente entrecortado por vinhetas estilizadas, elipses provocantes e incursões ao surrealismo em que o sangue tem papel de destaque. A trilha sonora, a ambientação cênica e a fotografia são de absoluta excelência. Embora caminhe para a revelação do serial killer, não se trata de um filme de mistério policial. O que interessa de verdade é o retrato de uma juventude que oscila entre a sede de experiências-limite e a depressão que os faz parecerem zumbis num filme de terror adolescente do qual só vemos as bordas.



Em muitos aspectos, OLYMPIA 2016 atualiza o filme político brasileiro. Financiado através de crowdfunding (534 pessoas), diretamente conectado com a realidade do momento, chega a uma sala de cinema depois de farta repercussão no circuito da resistência política. Investe também na conjugação de documentário e ficção. Documentário é o Rio de Janeiro que planejava construir um campo de golfe em reserva ambiental, removia comunidades e se preparava para as Olimpíadas. Ficção é Olympia, cidade-alegoria em tudo parecida com o Rio, mas com pequenas diferenças: no lugar do Cristo, uma Vitória de Samotrácia (Demokrácia sem cabeça); no cargo de prefeito, um tal Fernando Guerra e seu secretário Paulo Passos. O grande campo de especulação imobiliária não é a Barra da Tijuca, mas uma certa Barra do Bananal. Os habitantes de Olympia em algum momento tiveram suas asas literalmente cortadas.

As duas metades do filme se comunicam pelos recursos da alegoria e do filme-processo. O diretor-ator Rodrigo MacNiven, quando não está exibindo sua forma física, está preparando um doc-investigação sobre a história da grilagem e da corrupção em Olympia, dos anos 1930 à gestão do megaevento olímpico. Conta com a ajuda da mulher pesquisadora (Patrícia Abelson) e do advogado Jean Carlos Novaes (vivendo seu próprio papel). A parte documental tem um elenco de peso (Juca Kfuri, Vladimir Safatle, resistentes da Vila Autódromo, o filósofo e educador colombiano Bernardo Toro, entre outros). Eles conseguem, ainda que de maneira sintética, oferecer uma análise razoavelmente vertical de uma pauta ampla que inclui a dinâmica dos grupos de poder no Brasil, a tomada do estado pelo mercado, a deturpação do conceito de cidade pela ênfase na segurança e na segmentação de classes, a corrupção do Judiciário e os limites da democracia representativa tal como a vivemos hoje.

À exceção do discurso final de Paulo Passos, quando assume um tom de denúncia mais agressivo, e de alguns flashes de agitprop, MacNiven procura manter um nível de sobriedade e racionalidade. Suas imagens aéreas de obras que se confundem com demolições são tão eloquentes quanto muitas falas de seus entrevistados. Mas é forçoso reconhecer que o mesmo teor de legitimidade não se transfere para a parte ficcional, que força caminho pelo gênero do thriller e do melodrama político. Há sempre uma perda nessa passagem do documento para a invenção, a débito de uma estrutura meio dispersiva e uma encenação muito marcada pelo modelo televisivo. De qualquer maneira, OLYMPIA 2016 é um filme desbravador e necessário para a compreensão do que está por trás das fachadas eufóricas e dos discursos de engabelação.



transtorno

As diferenças de estereótipos entre Rio e São Paulo já foram mais que exploradas pelo cinema brasileiro. Os transtornos de dupla personalidade já serviram de argumento a zilhões de filmes, desde o expressionismo alemão. Os dois temas se juntam em versão muito fraquinha na comédia DESCULPE O TRANSTORNO. Gregorio Duvivier protagoniza o funcionário-padrão paulista que se transforma no largadão carioca toda vez que desembarca no Rio. Cada um deles tem uma namorada, que replicam os clichês da patriçona paulistana e da garota carioca descoladinha. Vendo o filme, volta e meia me perguntava se Gregorio estava satirizando ou vivendo a sério aqueles lugares-comuns. Mas não há dúvida de que é a sério. A proposta é uma comédia romântica careta, mesmo, daquelas de passar na Globo. Falta espirituosidade aos diálogos, as sequências se sucedem no ritmo rotineiro de alguém que precisa pegar a ponte aérea seis vezes por semana entre a casa e o trabalho. Esse longa-metragem bem que merecia uma paródia demolidora do Porta dos Fundos.