Elvis is over

ELVIS no streaming

A opção de narrar a vida de Elvis Presley pela ótica de sua relação com o manager de toda a sua carrreira é bem mais do que contar a exploração do artista por um empresário impostor. É também uma maneira de mostrar como Elvis levou dos negros de Memphis a veia irreverente e contestatária para sua persona nos palcos. Mais de uma vez o cantor resistiu às tentativas do “Coronel” Tom Parker de transformá-lo num “all american boy” degustável pela classe média bem comportada.

Seguidamente no filme, Elvis remonta a suas incursões da infância aos bairros negros para se conectar com o vigor, o atrevimento e a sensualidade que as plateias jovens ansiavam ver projetadas no seu ídolo. Seu corpo e suas performances eram um atentado às regras de segregação racial que ainda imperavam em fins dos anos 1950. De alguma maneira, ele assumia o lugar almejado de um super-herói – com o risco de ver sua roupa especial rasgada ao final dos shows.

Baz Luhrmann transforma essa trajetória romântica e trágica num festival de fogos de artifício. O barroquismo de seu estilo requer uma constante sucessão de clímaces, sejam eles de sucesso ou de crise. É preciso encher a tela o tempo todo com imagens justapostas, telas divididas, inserts gráficos, quadrinhos, caleidoscópios, salão de espelhos, circunvoluções da câmera… O filme dura 2 horas e 39 minutos, mas se somarmos todas as imagens que aparecem em sumultaneidade, temos quase 4 horas de material. Elvis é over. Elvis é forever.

Ainda bem que toda aquela exorbitância está a serviço de uma narrativa sagaz e muito bem conduzida. As liberdades não são apenas espetaculares, mas se amoldam a um relato que transita entre o realismo e a metáfora. Exemplo interessantíssimo é a fase em que a vida familiar de Elvis ganha status hollywoodiano, tendo o ambiente doméstico transferido para um grande estúdio de filmagem.

A ligação complexa com Parker, seu pai profissional, ilustra a de tantos artistas com pais exploradores. Um tipo de conexão difícil de romper porque eivada de dependências mútuas e chantagens emocionais. O filme enfatiza como o empresário prendeu Elvis aos compromissos que lhe interessavam e impulsionou sua decadência com pílulas, injeções e exigências.

O teor funesto que a vida de Elvis tomou perto do final é construído paulatinamente através das notícias de morte de celebridades como Bob Kennedy, Martin Luther King e Mahalia Jackson. À medida que o desfecho se aproxima, o filme vai trocando o frenesi estético por uma cadência mais branda e grave.

Austin Butler tem uma performance física admirável como Elvis, inclusive cantando boa parte das canções do Elvis mais jovem. Nas músicas posteriores, sua voz foi mixada com as gravações originais. Quanto a Tom Hanks coberto de próteses no papel de Parker (foto), chega a ser um spoiler revelar o nome do ator para quem ainda não chegou aos letreiros finais.

>> Elvis está disponível nessas plataformas.

 

5 comentários sobre “Elvis is over

  1. A figura de Tom Hanks no papel de empresário de “Elvis is over”, graças a essa metamorfose propiciada pelas próteses de que você nos informa, me lembra a cara “cuspida e escarada” do ator Jim Backus (1913-1989), tal é a sua semelhança física com o “pai” de James Dean, em “Juventude Transviada”, não é?

  2. Que bom que você gostou! Eu fiquei surpreendido com o filme. Tantas críticas negativas e o filme funciona lindamente! Escolher um ângulo e tratar Elvis através do tema exploração empresárioX artista é uma excelente oportunidade de dar alento a um baita artista. E mostrar as barreiras que quebrou. Como você diz: todos os fogos, todos aos malabarismos são válidos quando o roteiro é super sólido. Feliz aqui pelo Luhrmann!

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