OS SONHOS DE PEPE
Normalmente alheio às badalações mundanas, na década passada José Mujica deixou várias vezes sua chácara na periferia de Montevidéu para fazer palestras e lançar seu livro em alguns países. Foi acompanhado em parte dessas viagens por Pablo Trobo, seu cineegrafista na campanha presidencial de 2009. O material rendeu a Trobo uma trilogia cujo primeiro tomo é Os Sonhos de Pepe (Los Sueños de Pepe – Movimiento 2052). Dedicado especificamente às viagens e às preleções filosóficas de Mujica, esse filme será seguido por outros sobre a sua visão política e a sua vida pessoal.
Nós já sabemos que, mesmo quando fala de política, Pepe o faz por um viés filosófico. O futuro da humanidade o preocupa mais do que o simples presente. É bem conhecida sua pregação contra o consumo como modo de vida, a substituição das relações humanas diretas pela mediação tecnológica e a depredação do planeta que conduz ao holocausto ecológico. O número 2052, citado no subtítulo original do documentário, refere-se ao ano em que o colapso ambiental não terá mais conserto caso não se reduza drasticamente o consumo de recursos naturais.
A liberação da maconha no Uruguai, obra do seu governo, e a defesa intransigente do direito dos imigrantes são temas que o colocam na linha de tiro da direita internacional. Mas Mujica não se deixa intimidar. Move-se pelo mundo sem abdicar do jeito simples e da alma camponesa, desprovido de todos os símbolos de poder. Lado a lado com sua mulher, a senadora Lucía Topolansky, o ex-guerrilheiro tupamaro, prisioneiro durante 12 anos, parece hoje um missionário da paz e da bem-aventurança social.
Assim o vemos no filme, discursando na ONU em 2013, sendo assediado como astro pop no Japão e puxando a orelha da elite política alemã em 2016. Ecos de suas intervenções nas negociações das FARCs com o governo colombiano, em 2014, também vêm à tona. A câmera de Pablo Trobo o segue como pode nos moldes do cinema direto, mas reserva a maior parte de suas falas para uma camada em voz over. Talvez para fugir ao modelo de cabeças falantes, e no intuito de criar um documentário de linguagem ágil e surpreendente, Trobo providencia um fluxo veloz de imagens alusivas ao estado atual do mundo, em grande parte provindas de bancos de imagens.
A pletora visual inclui animações, incrustações e uma série de efeitos que às vezes roçam o surrealismo. Ora ilustram diretamente o discurso oral de Mujica fora do quadro, ora fluem livres como uma narrativa paralela. Há um contraste gritante entre a retórica mansa e pausada de Pepe e o frenesi visual da edição, que mistura um comentário crítico sobre as sociedades com flashes turíticos dos locais visitados. Sem dúvida é algo buscado pelo documentarista, mas que me pareceu bastante discutível como forma de construção. Some-se a isso o uso reiterado de O Trenzinho Caipira, de Villa Lobos, e da ária Nessun Dorma, de Puccini, na trilha sonora. Sem qualquer relação com o universo de Mujica, essas composições servem apenas como iscas de um engajamento emocional desnecessário. Pepe merece atenção e carinho, mas não precisa ser santificado em filme.
>> Os Sonhos de Pepe está nos cinemas.


Gracias Carlos por tomarte el tiempo de escribir una critica sobre la película
saludos !!!
Pablo Trobo
Saludos, Pablo. Aguardamos la continuación de tu proyecto.