Um cineasta retirante

por Hildeberto Barbosa Filho

Há uma ilusão biográfica segundo Pierre Bourdieu. Ou seja, toda biografia, por mais completa, encerra lacunas, vazios, indeterminações, representando, de fato, apenas alguns aspectos da complexidade de uma vida. Toda biografia é uma biografia sem fim como afirma Felipe Pena. Sérgio Vilas Boas, por sua vez, a partir  de conversações com Alberto Dines, chega a afirmar que “biografias não têm limites. São insubmissas e insubordináveis.”

No entanto, mesmo assim, diria que as biografias são necessárias, pois a ambivalência de sua natureza discursiva não elide seu potencial  artístico nem sua força documental. Carlos Alberto Mattos, jornalista, crítico e pesquisador de cinema, parece admitir essas idéias ao construir um elaborado perfil de Vladimir Carvalho, em Pedras na Lua e Pelejas no Planalto ( São Paulo, Imprensa Oficial, Coleção Aplauso, 2008).

Narrado em primeira pessoa,  na voz do próprio cineasta paraibano, embora sob a direção verbal do autor, temos, como num documentário, uma sequência de quadros que procuram reconstituir a trajetória do homem e do artista, as interfaces de sua vida e sua obra. O Vladimir menino em Recife, sua passagem por Salvador, o cinema, a militância política, Brasília, a convivência  com os parceiros de documentário, os grandes filmes, tudo se recompõe em quadros e planos, em recortes e angulações que permitem , ao leitor, ora penetrar na singularidade da figura humana, com seus sonhos e idiossincrasias, ora na singularidade do artista, com seu jeito especial de fazer cinema.

A técnica utilizada por Carlos Alberto Mattos, a exemplo de algumas biografias contemporâneas, tem muito do método da história oral, na medida em que o repórter-biógrafo escuta o biografado a partir de longas entrevistas gravadas, entrevistas essas que se instituem como o “diálogo possível” a que se refere Cremilda Medina. Daí a manifestação de uma voz autoral em toda sua espontaneidade, assim como o foco de registros abertos que o autor/editor intenta concatenar numa lógica textual e numa representação simbólica a mais próxima do ser humano retratado.

Dessa maneira, a narrativa faz um rastreamento obra a obra, desde as experiências iniciais de Aruanda, passando por realizações como O País de São Saruê, O Homem de Areia  e Conterrâneos Velhos de Guerra, até  O Engenho de Zé Lins, esclarecendo-lhes os respectivos contextos que, no mais das vezes, privilegiam as componentes estéticas a obra em detrimento do autor.

É claro que nas falas de Vladimir, organizadas por Carlos Alberto Mattos, despontam conceitos e categorias da estética cinematográfica, da história e das características do documentário brasileiro, aspectos técnico-formais, temático-ideológicos e estilísticos de seus próprios filmes. Porém, em nenhum momento, estas inserções teóricas conseguem desviar o rumo dos verdadeiros interesses da escrita biográfica. Isto é: o que há por trás das realizações, o que germina nas raízes ocultas e inquantificáveis da vida de uma pessoa, sua dimensão interior e intersubjetiva. Por exemplo, a relação de Vladimir com o pai, a relação de Vladimir com o irmão mais novo, Walter Carvalho, também cineasta, e, principalmente a relação de Vladimir com sua terra de origem descortinam, em sua história de vida e em sua personalidade, aspectos seminais de sua compleição psico-existencial, também indispensáveis  a uma melhor recepção de seus filmes.

Sabemos que a fala é caótica por natureza. Todo o mérito, portanto, ao autor, que soube ordenar e demarcar, a partir do imenso volume verbal das entrevistas, os pontos essenciais do discurso do outro, pondo em prática um dos mais louváveis preceitos da ética jornalística ao mesmo tempo em que garante o elemento imprescindível ao gênero biográfico, isto é, a empatia para com o biografado. Empatia de autor que deve se estender ao leitor.

Nesse sentido, chamo a atenção para alguns momentos da fala de Vladimir Carvalho sob a arguta atenção de Carlos Alberto Mattos. Vejamos:  “(…) o sublime acidente geográfico das coxas de uma mulher” (p. 38 ); “A faquinha foi um dos objetos emblemáticos de minha vida” (p.60 ); “( …) entre Beckett e Brecht, fico com Brecht. O homem tem saída, sim.” ( p.71); “o retorno ao Nordeste, minha nave-mãe, é para mim uma questão umbilical. Sou um cineasta retirante. Saí do Nordeste, mas o Nordeste nunca saiu de mim”  (p. 151). E, como complementando: “Desenraizado, sobrepairo num certo limbo, entre o céu e a terra. Brasília sempre foi o meu país estrangeiro, o máximo de distância que me permiti tomar em relação à minha nave-mãe” (p.. 153 ).

Se Vladimir Carvalho é um documentarista preso, sobretudo, ao nervo do humano, às notações sociais e políticas da expressão estética, sem se submeter, contudo, a programas ou ideologias; se Vladimir Carvalho é criador, portanto, de uma forma particular onde o universal brota do singular e o sublime se entranha no cotidiano, Carlos Alberto Mattos, neste livro, como que se deixa seduzir pelos mesmos critérios, com eles traçando um dos mais sugestivos e desafiadores roteiros do grande cineasta brasileiro.

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