Uma invasão canadense?

Brilhante!

É o mínimo que se pode dizer da minissérie Som & Fúria, de Fernando Meirelles na Globo. A intensidade e a velocidade características da TV são usadas não para jogar areia nos olhos do espectador, mas para despejar inteligência cênica, acelerar o humor e aditivar a ironia de um texto provocante. Vá lá que a adaptação à realidade brasileira (mesmo à paulista) não convença muito. Mas o pique dos atores e o ritmo contagiante criam um universo próprio que, afinal, não precisa da realidade para se manter de pé.

Som & Fúria baseia-se na telessérie canadense Slings and Arrows, de Mark McKinney, Susan Coyne e Bob Martin. Vocês já repararam como os brasileiros estão antenados ultimamente com os originais do Canadá? Monique Gardenberg montou Os Sete Afluentes do Rio Ota, de Robert Lepage. Selton Mello dirigiu Zastrozzi, de George Walker. Enrique Diaz encenou In On It, de Daniel MacIvor. O grupo paulista Serial Cômicos fez Cold Meat Party, de Brad Fraser. Será que estamos vivendo uma “invasão canadense” na cena nacional?

5 comentários sobre “Uma invasão canadense?

  1. Não acho que esteja longe da realidade teatral brasileira. Pelo contrário. Temos até personagens inspirados em Jandira Feghali, Barbara Heliodora etc. As cenas com os “patrocinadores” são sempre hilárias e duvido que haja algo parecido no Canadá. Minha esperança é que essa gente tenha assistido, principalmente ao primeiro capítulo, e percebam o que a classe artística realmente pensa deles. Quem sabe assim melhoram um pouco. As duas tietes gays que fazem o papel de coro com comentários maldosos porém lucidíssimos também são um achado. Quem não conhece uma, ou duas, ou várias?

    • Tem Oswald Thomas também, numa sátira impiedosa. Mas acho que está um tom acima da realidade brasileira principalmente no que diz respeito a cenografia, figurinos e à velocidade do pensamento/falas. O fato é que somos mais lentos e a maquiagem digital não combina com nossas fisionomias. A dupla gay é Rosencrantz e Guildenstern, que completam com Dante/Hamlet e o fantasma de Oliveira/Pai as referências shakespeareanas dentro-fora da peça. É muito engenhoso. Bom pra cacete. Que se dane a realidade brasileira.

  2. Touché, monsieur de Mattos.
    Depois da sua resposta pertinente, estou em crise existencial: será que perdi o gosto das massas populares? Logo eu, um dos mais proletários do pedaço?
    Eu concordo – até escrevi – que Som & Fúria é uma das melhores coisas da TV dos últimos tempos, prima-irmã da obra de Luiz Fernando Carvalho. Mas, depois de dois episódios, não me seduziu e, pior, começou a me incomodar. Achei excessivo todo aquele profissionalismo publicitário que pelo menos eu estou careca de ver. Talvez você desligue a TV ou vá assaltar a geladeira quando entram os comerciais, hem?
    Ops! En garde! (rss).
    Grande abraço,

  3. Carlinhos,
    Não achei tanto, apesar de, à primeira vista, ser uma das melhores coisas da TV. Mas vi apenas o segundo e o terceiro episódios.
    No segundo episódio, que foi o meu primeiro, dei de cara com Maria Flor fumando um baseado “do bem”, que creio ser o primeiro baseado “do bem” da história da TV brasileira. Eu disse: “Viva Fernando Meirelles!”.
    É claro que o baseado foi fumado em off, mas na cena seguinte ela, rindo à toa, se encontra com Daniel de Oliveira, que também estava sob o efeito feliz de um baseado. “Mas só porque os personagens são atores”, disse Mariana. “Queria ver se fossem médicos ou executivos”, completou. Pode ser, mas a revolução sempre começa com artistas, não é, não?
    Depois desse baseado, o que ficou para mim foi um maneirismo contínuo, cada plano sendo rodado como se fosse um comercial de banco ou automóvel, a câmera milimetricamente coreografada com o piscar de olhos do (excelente) elenco, acentuada pela (ótima) música e preenchida pela (perfeita) edição de sons e ruídos de sala. Ou seja, mesmo sendo novo na teledramaturgia, nada além do que tudo aquilo que a gente já está mais do que cansado de ver.

    • Pô, Marcelo, não acho que todos esses adjetivos que você usou caibam na imensa maioria do que se vê na TV brasileira. Eu, pelo menos, não estou cansado de ver inteligência, precisão e crítica cultural na TV. O que vejo sempre é o contrário: fórmulas medíocres, mambembismo cafona e nivelamento por baixo. Por isso, depois de 4 capítulos, continuo achando “Som & Fúria” biscoito fino para as massas.

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