Jovens fora do eixo

Vem aí uma onda de filmes brasileiros sobre as alegrias e agruras da adolescência. César Rodrigues e a Total Entertainment preparam o lançamento da franquia High School Musical: O Desafio; Laís Bodanzky retoca para abril As Melhores Coisas do Mundo; Esmir Filho já comprovou com o grande prêmio do Festival do Rio a qualidade do seu primeiro longa, Os Famosos e os Duendes da Morte, a ser lançado em março.    

Nesse surto de espinhas e pingentes em forma de coração há lugar também para dois documentários produzidos fora do eixo dominante Rio-São Paulo-Pernambuco. Eles têm tantas semelhanças que parecem conversar através das montanhas entre Minas e o Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, são filmes muito diferentes entre si.

"Morro do Céu": síntese e continuidade

Morro do Céu, de Gustavo Spolidoro, observa o cotidiano do “guri” Bruno Storti na pequena e bucólica Cotiporã, colônia de imigrantes italianos no RS. A Falta que me Faz, de Marília Rocha, registra as inquietações de quatro meninas da localidade de Curralinho, distrito de Diamantina (MG). Ambos os realizadores têm inserção garantida no melhor do cinema brasileiro contemporâneo – Gustavo com vários curtas marcantes e o longa em plano-sequência Ainda Orangotangos; Marília com o premiado Aboio e o delicioso Acácio.

Seus novos filmes adotam um olhar suavemente cúmplice sobre protagonistas um pouco mais novos que eles próprios. Os traços comuns são muitos, já que procuram captar a procura do amor, os pequenos projetos de vida e as opções de diversão nas respectivas cidades do interior. Tanto o gaúcho Bruno quanto as meninas mineiras jogam suas expectativas amorosas em mensagens pelo rádio, gravam suas marcas em paredes, árvores ou no próprio corpo, e falam com prosódia e sotaques tão particulares que dependemos de legendas para acompanhar seu pensamento. As paisagens montanhosas (verdejantes no sul, rochosas em Minas) têm importância acentuada na contextualização emocional dos personagens. O absoluto intimismo aproxima os dois filmes.

"A Falta que me Faz": uma gravidade sorridente

Alessandra, Valdênia, Priscila e Shirlene, protagonistas de A Falta que me Faz, estão no limiar da mocidade. Suas preocupações envolvem gravidez, casamento, rivalidades afetivas, suicídio por amor etc. Há uma certa gravidade, embora sempre sorridente, nos diálogos que elas estabelecem entre si e eventualmente com a própria diretora. Marília Rocha não se contenta com a pura observação, mas também questiona e provoca conversas, quebrando o seu próprio código inicial. Na melhor sequência do filme, Alessandra reverte o foco interrogando a equipe. Em outro momento, Valdênia convida a diretora para a lista de potenciais madrinhas do seu futuro bebê.

É nessa forma de aproximação que os filmes se diferem fundamentalmente. Enquanto Marília opera sua cumplicidade através do contato, discreto mas frequente, Gustavo disciplina a sua na absoluta não-interferência. Sua câmera (ele mesmo gravou imagens e sons), quase sempre fixa no tripé, colhe cenas espontâneas no figurino ideal do cinema direto americano, como uma mosca na parede. Mas esta é uma mosca caprichosa, atenta à beleza das composições e à eloquência da luz. Às vezes com múltiplas câmeras num mesmo ambiente, Gustavo monta cenas como num filme de ficção. Se das filmagens ele aproveita geralmente fragmentos, edita-os numa lógica narrativa de filme dramático, baseada na síntese e na continuidade.

Marília, por sua vez, prefere preservar a descontinuidade, a abordagem casual, tanto na câmera na mão como na montagem. Não há intenção de criar uma ordem sequencial, mas um conjunto de situações mais ou menos independentes. Em Minas, ela investe na capacidade de expressão oral e corporal das meninas. No sul, Gustavo trabalha com a singeleza e a introspecção de Bruno Storti.

É bom ver assim tão de perto a vida dessa garotada fora do eixo. Serve para lembrar que a juventude no Brasil não é tão homogeneizada como se pensa. Nem todos seguem o figurino de High School Musical.     

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