Os filmes-processo

Hoje, sexta, viajo cedinho para a Mostra de Cinema de Tiradentes, a tempo de participar da mesa sobre “A Estética do Processo – os Filmes por trás dos Filmes”. Pedro Butcher, Cezar Migliorin e eu vamos conversar sobre um dos traços mais marcantes do cinema contemporâneo, que é a reflexividade – os filmes que expõem ou comentam seu próprio processo de realização.

Certamente estarão em foco filmes como Aquele Querido Mês de Agosto, Romance de uma Geração, Juventude em Marcha, diversos de Eduardo Coutinho e A Falta que Nos Move, de Christiane Jatahy. Todos trazem algum raciocínio sobre a representação no cinema e se constroem através de uma suposta desconstrução de seus mecanismos narrativos.

Na minha participação, pretendo abordar uma variante dessa questão: os filmes que apresentam uma “reflexividade para fora”, ou seja, tratam do processo não deles próprios, mas de algo que lhes é análogo. Por exemplo, Moscou nos faz mergulhar no processo de preparação de uma peça, embora não seja o making of de um espetáculo. O processo da peça de Tchekov é também o processo do filme. Mas, por ser principalmente da peça, o filme, a meu ver, se frustra como objeto cinematográfico.

Outro caso interessante é Santiago, de João Moreira Salles. O filme trata do processo de um filme que não foi feito nos anos 1990. É o making of crítico de um filme que nunca existiu, enquanto o Santiago afinal existente nos chega como uma máquina de significações perfeitamente fechada, pronta, inexpugnável. Temos apenas a ilusão de conhecer o processo de realização do Santiago definitivo.

Se der tempo, quero falar um pouco também do curta A Letter to Uncle Boonmee, que vi na internet. Nesse filme, o tailandês Apichatpong Weerasethakul comenta os impasses que enfrentou para fazer um longa sobre o mesmo tema: um homem moribundo e capaz de recordar suas vidas passadas. Uncle Boonmee é um projeto multiplataforma sobre extinção e memória que o cineasta está tocando na Tailândia com patrocínio europeu. O curta tem uma narração em off e até o desvelamento de procedimentos de câmera que servem para falar de um processo maior em curso.

Tiradentes tem clima para esses papos.    

4 comentários sobre “Os filmes-processo

  1. De fato deve ter sido muito interessante o debate. Vejo uma outra relação nos filmes-processo, na verdade uma interseção entre “Jogo de Cena”, “Moscou” e “A falta que nos move” que ao mesmo tempo são filmes-jogo onde nós que assistimos ficamos apostanto internamente para saber o que é mentira e o que é verdade até nos darmos conta de que isso não é importante e aí nos envolvemos inteiramente com cada cena.

    • É isso mesmo, Dani. No debate, chegamos a comentar como os filmes-processo, quando são realmente bons, engajam o público no seu processo de criação. O processo, geralmente de caráter colaborativo, acaba envolvendo também a “colaboração” do espectador, que é levado a se posicionar em meio à ambiguidade e à aventura da invenção do filme.

  2. Tema que rende uma bela discussão, hein?
    Parafraseando o companheiro aí de cima: “Gostaria muito de estar em Tiradentes para ver” ².
    Beijos,
    Ariane

  3. Vocês três na mesa? Com certeza o debate vai ser da pesada! Gostaria muito de estar em Tiradentes para ver.
    Abraços e boa viagem.
    Vinícius.

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