Um filme espiritual em que faltou mais alma

A roteirista e script doctor Olga Pereira Costa, pessoa bastante ligada a questões da espiritualidade, nos oferece essa visão aclaradora de O Mestre, um filme que a mim pareceu bastante obscuro.

ImagemPaul Thomas Anderson inicia seu “O Mestre” (“The Master”), candidato a três Oscars (melhor ator: Joaquin Phoenix / Freddie Quell; melhor ator coadjuvante: Philip Seymour-Hofman / Lancaster Dodd; Amy Adams / Mary Sue Dodd) com uma lenta e repetitiva apresentação de seu herói, o marinheiro Quell, egresso das fileiras da Segunda Guerra Mundial, altamente sequelado por vícios e traumas pré e pós conflito bélico. O cineasta, que assina roteiro e direção (ou não seria um *C*ineasta…), opta por economizar na veiculação de informações e códigos preciosos que domina, deixando um público mais amplo meio por fora da questão que, de fato, é o âmago da trama: a espiritualidade e os elos que ligam as pessoas entre si através do tempo e do espaço, diuturnamente, tendo no conceito da reencarnação sua base teórica, mística e filosófica.

O que poderia ter sido o grande diapasão do filme, explicitando sem maiores pudores o elo essencialmente espiritual que une verdadeiramente Quell a Dodd – uma luz que ilumina a silhueta d´O Mestre, en passant, ao alto da tela, à esquerda, e que atrai o marujo para o navio em sua fuga acelerada de seus perseguidores – perde-se na grandiloquência do plano em si, sendo perceptível apenas por parte da plateia, que precisa ter olhos de lince para captar o breve momento. Uma pena, já que essa marca de diretor, tão interessente e pertinente, passa batida frente ao contexto da exploração d´ “A Causa” como fenômeno puro e simples de manipulação de massas.

Ocorre que, nas religiões “neo qualquer coisa”, os mundos espiritual e material flertam, namoram e casam – seja por uma questão de racionalidade inerente àquela religião em si e/ou por necessidade de manter a própria estrutura material de uma igreja organizada e a sobrevivência de seus membros administradores. É importante aqui notar que não é comum que um discípulo desse tipo de religião chegue a seu mestre / templo pelas próprias pernas, posto que o fator “difusão”, reflexo dos novos conceitos de marketing de rede e vendas porta-a-porta, típicos da “advertising age”, desenvolvidos nos Estados Unidos da década de 50 (ano exaustivamente marcado por PTA ao longo da trama), amplamente praticados pelas “neo igrejas”, não se aplica em absoluto ao encontro de Quell com Dodd. No caso dos dois, a luz tênue e amarelada que o carente Quell percebe no alto de um portentoso navio foca precisamente aquele que virá a ser seu farol / porto / volta ao lar. Um reencontro de outra vida, provavelmente vivida por ambos como um casal.

As referências ao homossexualismo latente dos dois e sua mútua atração são várias. Quell / *Qu*ere*ll*e (?!) & Dodd / *Do*ris*dd* (?!) se amam de verdade. Se abraçam muito; e, indo além dessa prática mais usual de demonstração de afeto, chegam a rolar num gramado como dois adolescentes apaixonados, sob os olhares curiosos dos outros já então membros da ainda seita.

Mary Sue, a esposa grávida de Dodd, com uma filha pequena do casal sempre pela mão, também funciona como mais um diapasão difuso: no caso, tendendo a funcionar como o contraponto à questão espiritual, quando dá as boas vindas a Quell no navio, e até mesmo lhe agradece por colaborar naquele ambiente de alto mar, no qual O Mestre rende mais em seu trabalho, longe de pessoas “inconvenientes” tais como ex-esposas que perturbam sua paz (e, certamente, suas finanças).

Detentora de um leque de informações e técnicas que administra habilmente e que lhe confere poder, Mary Sue é de fato a pedra fundamental daquela fé; controladora de todos os fatos e falos no seu entorno, domando-os e tomando-os para si. Dodd, um líder carismático e fanfarrão, o grande vendedor do produto final arquitetado e lapidado por Mary Sue, obedece à “patroa” e segue com sua missão de plantar a semente de algo diferenciado em meio a sociedades secretas que pululam em paralelo ao avanço científico/tecnológico consequente dos aprendizados de guerra (Força Aérea dos Estados Unidos e NASA) e da doutrina kardecista se firmando na Europa. Já Quell, o javali furioso, perdido entre mulheres que enxerga de forma indistinta, é o melhor animal de que ambos dispõem para garantir o sucesso da “difusão” d´”A Causa”, uma vez que o filho mais velho de Dodd, com aparência e postura suínas, não tem qualquer identificação com o pai e vice-versa.

Assim, unidos pelo amor e pelo vício, Quell e Dodd resgatam boa parte de seus karmas, ao mesmo tempo em que criam ouros tantos, ao lidar com a espiritualidade de forma eticamente questionável. Porém, a partir de certo momento, seguem caminhos diferentes, mas nem tanto. Como ocorre muitas vezes nos campos tanto espiritual quanto material, o discípulo supera o mestre.

Como atores, não é fácil mensurar precisamente quem supera quem. Cada qual tem seu estilo. Através de muitos closes enfatizando o lado lunar de Quell, sobre quem a luz baixa predomina, em contraponto ao lado solar de Dodd, enfatizado ao máximo pela aura / auréola de uma luz mais frontal e amarelada, PTA tenta equilibrar esse jogo de forças, obtendo um resultado um tanto mais caricato de Phoenix, e mais efetivamente atuado de Seymour-Hoffman. Amy Adams, oficialmente creditada como coadjuvante, subverte um pouco tal conceito, tamanha a sua dedicação dramática.

De qualquer forma, ainda não foi dessa vez que PTA conseguiu superar-se com relação à sua obra-prima “Sangue Negro” (“There Will be Blood” – roteiro adaptado do romance “Oil!”, de Upton Sinclair), um dos melhores filmes de 2007, e talvez até mesmo da primeira década do Séc. XXI. Idem, inútil qualquer tentativa de Joaquin Phoenix de equiparar-se a Daniel Day-Lewis, se é que isso lhe ocorreu.

“O Mestre” é uma tentativa válida de abrir uma porta diferente na linguagem cinematográfica, mas
perde na fluidez da ação, por uma certa timidez do diretor de enfiar a chave até o fim e girar, sem medo de escancará-la.

Olga Pereira Costa

Um comentário sobre “Um filme espiritual em que faltou mais alma

  1. se lhe pareceu obscuro Carlinhos, o filme cujo tema é espiritualidade,atinge o objetivo,acredito.Independente da visão da especialista.não sei se vai chegar as telas do sertão mineiro onde os exibidores colocam o que quer…saudade da lei de obrigatoriedade.Cinema francês aqui nem pensar,Wood Allen tb não passa no crivo dos exibidores,que possuem salas em várias cidades do país.e la nave vá

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