Helena Salem – entre o cinema e a política

(Artigo publicado originalmente na revista Filme Cultura nº 59)

Quando entrevistava Leon Hirszman para seu livro sobre Nelson Pereira dos Santos, aflita na tentativa de compreender seu personagem, Helena Salem ouviu um alerta do diretor de São Bernardo: “Compreender vai ser difícil”. Mas ela só foi perceber a extensão da frase anos depois, quando escrevia sobre o próprio Leon. Compreender, no sentido de extrair um sentido geral, seria demais não só para Nelson, mas para qualquer objeto de pesquisa. Melhor contentar-se com a pluralidade e as contradições do outro, em vez de pretender desvendar-lhe os mistérios.

Essa dialética entre o apetite de compreender e a humildade de aceitar o contraditório foi uma constante no trabalho da jornalista e pesquisadora Helena Salem (1948-1999). O cinema dividiu com a política sua maior paixão, sem falar nas duas filhas que deixou, a escritora Tatiana Salem Levy e a arquiteta e diretora de arte Dina Salem Levy. Nas bibliotecas de cinema, seus legados principais são os livros Nelson Pereira dos Santos – O sonho possível do cinema brasileiro (Nova Fronteira, 1987/Record, 1996) e Leon Hirszman – O navegador das estrelas (Rocco, 1997), mas as cinematecas e videotecas também guardam seus trabalhos em colaboração direta com Jorge Bodanzky (Igreja dos Oprimidos) e Eduardo Escorel/Roberto Feith (90 anos de cinema – uma aventura brasileira, 1988, série de TV também editada como livro).  

Nelson Pereira dos Santos recorda-se de Helena fazendo-lhe as mesmas perguntas em épocas diferentes da pesquisa. Quando ele alegava que já havia falado sobre aquilo, ela respondia: “Era só pra confirmar se você se lembrava direitinho”. A segurança na informação só rivalizava com a importância do afeto nas duas biografias que Helena escreveu.

Nelson ganhou dela a primeira biografia de um cineasta brasileiro vivo. Minucioso e inspirado, o relato se deixa impregnar pelo carinho que ela devotava ao biografado, a quem chamava abertamente de “meu herói”. Dessa relação aparentemente pouco propícia à objetividade jornalística nasceu um livro honesto em seus argumentos, mesmo naqueles que tentavam defender os pontos mais frágeis da filmografia do diretor. Helena contextualizava as oscilações da carreira de Nelson na própria irregularidade histórica do cinema brasileiro. Desde o título do livro, o cineasta aparecia como personagem-síntese de um cinematografia nacional. 

Se o perfil de Nelson emergia através de um detalhado levantamento biofilmográfico, incluindo as condições de produção e criação de cada filme –, Leon Hirszman inspirou uma abordagem mais intelectual, existencial e antropológica, a partir da própria identificação da biógrafa com as origens judaicas do biografado.

Helena Salem era filha de imigrantes judeus sefarditas da Turquia e carregava um sobrenome de sonoridade árabe. Sua formação humanista e universalista a conduzia para a condição do “judeu não judeu”, como definido por Issac Deutscher, ou seja, aquele que supera o judaísmo e vive na fronteira de várias civilizações, religiões e culturas nacionais. Por identificar essas características também em Leon, filho de judeus poloneses, Helena o elegeu tema de seu mestrado em História Social da Cultura na PUC-RJ. Leon Hirszman – O navegador das estrelas é um desenvolvimento da pesquisa para a tese. Livro farto em cruzamentos da obra de Leon com o pensamento de Walter Benjamin, Spinoza, Freud e Marx, ainda assim não descuida do foco biofilmográfico, repassando o processo dos filmes e enfocando a atuação política do cineasta, um dos ideólogos do nacional-popular no campo do cinema.

Para ambos os livros, Helena recorreu a arquivos brasileiros e estrangeiros, entrevistou muitas dezenas de pessoas e esquadrinhou acervos de filmes em busca das respectivas obras completas. A pesquisa sobre Nelson levou à descoberta da única cópia existente de El Justicero (1966), dada como perdida. Paciência e persistência eram suas armas. Ouvir, a base de seu método. Ela “nunca disputava com o entrevistado o troféu da esperteza”, como disse a filha Tatiana num texto sobre a mãe.

No seu premiado romance A chave da casa (Record, 2007), Tatiana Salem Levy fantasia sua relação com a mãe, assim como fatos da vida de Helena. O tratamento ficcional é escancarado, mas ainda assim fica um substrato de verdade nas histórias da família no exílio. Tatiana nasceu em Portugal, para onde Helena imigrara acompanhando o marido, o professor de Filosofia Nelson Levy, dirigente do PC do B perseguido pela ditadura. Helena nunca atuou diretamente em organizações clandestinas, mas sempre apoiou e simpatizou-se com os que lutavam contra o regime militar. Marco Antonio Maranhão, seu amigo desde os tempos do movimento estudantil, em fins da década de 1960, é testemunha das formas como Helena ajudava os amigos na clandestinidade, inclusive no perigoso trânsito de documentos entre o Brasil e os países onde eles se encontravam exilados. “Acho que ela nem tinha ideia dos riscos que corria”, supõe Maranhão.

A partir de 1974, também ela experimentou a distância da terra natal. Em Lisboa, foi correspondente da revista IstoÉ e do jornal Movimento. Retornou ao Brasil em 1979 com a anistia e passou a colaborar com O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal do Brasil, e ainda atuar como correspondente dos jornais portugueses O Expresso e O Jornal.

Nessa época, o cinema era apenas um objeto de culto. Seu campo de ação era a reportagem política. Ela formou-se em Ciências Sociais pela UFRJ em 1970, época em que já trabalhava na editoria internacional do Jornal do Brasil. Depois de passar um ano na Itália com uma bolsa de pós-graduação em Política Internacional, resolveu conhecer o Egito justamente no momento em que eclodiu a Guerra do Yom Kippur. Lá estava a jovem de 24 anos improvisando-se em correspondente de guerra. Consta que foi a primeira mulher brasileira nesse ofício. A aventura está contada em seu livro Entre árabes e judeus (Brasiliense, 1991), misto de autobiografia e livro-reportagem em que a autora se coloca questões como essas:

“O que faz com que me sinta tão próxima do soldado israelense como do egípcio? Será que eles não sabem que são tão parecidos? Como juntar aquela menininha que jurou nunca se casar na sinagoga com a mulher que agora assume uma identidade de árabe para poder circular livremente por Egito, Síria, Jordânia, Líbano, sem medo de ser molestada? Como ser, ao mesmo tempo, alvo de repúdio da colônia israelita e de desconfiança dos árabes? O que fazer com meus véus interiorizados de mulher judia oriental, que reconheço tão próximos dos véus que recobrem a face das mulheres árabes? (…) Que jornalista o quê? E se começam a bombardear o Cairo? E se eu morrer aqui? Que coisa mais estúpida! Se ainda fosse a revolução no Brasil… Mas morrer numa guerra entre árabes e Israel… Não tenho nada a ver com isso”.

Esse estar ao mesmo tempo nos dois lados e em nenhum dos lados – ou melhor, esse não reconhecer a existência de dois lados – fez com que Helena Salem se especializasse nos conflitos do Oriente Médio, ao mesmo tempo em que investigava os desmandos brasileiros em tempos de regime militar. Antes de partir para o exílio, foi editora internacional do jornal alternativo Opinião. Entre o fim dos anos 1970 e o início dos 80, escreveu inúmeros artigos sobre aqueles temas e lançou os livros Palestinos, os novos judeus (Eldorado, 1977), Igreja dos Oprimidos (Brasil Debates, 1981) e O que é questão palestina (Brasiliense, 1982).

Igreja dos Oprimidos, organizado por Helena, reunia artigos dela e de vários autores com prefácio de Paulo Freire. A coletânea levantava a situação dos padres católicos progressistas que se insurgiam contra a matança de lavradores numa época em que, já moribunda a ditadura, os fazendeiros acionaram a jagunçada para defender seus latifúndios. Serviu de base para o documentário homônimo codirigido com Jorge Bodanzky e produzido por Lucíola Villela, sogra do produtor Luiz Carlos Barreto. O padre Ricardo Rezende ocupou no filme o lugar do personagem principal do livro, o bispo Dom Pedro Casaldáliga. A parceria entre Helena e Bodanzky era das mais produtivas. Ele encontrava uma pesquisa já pronta e uma colaboradora com contatos sólidos num dos terrenos mais férteis para a Teoria da Libertação, o sul do Pará. “Muito doce mas também muito ativa e politizada, ela usava suas relações para criar um ambiente favorável à nossa entrada com a câmera”, recorda-se Bodanzky.

A participação nesse documentário foi decisiva para uma guinada na carreira jornalística de Helena Salem. Em pouco tempo, sem abandonar completamente a seara da política internacional, ela colocou o cinema no centro de seu trabalho. Tornou-se assídua repórter ou articulista free-lancer em jornais como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. Dedicou-se a entrevistar cineastas, cobrir festivais de cinema, fazer reportagens sobre filmes em produção e escrever resenhas críticas. Foi a época das grandes pesquisas para seus livros biográficos. As filhas Dina e Tatiana lembram-se dela se dividindo sem atritos entre as atenções familiares e “o livro”. Espantavam-se com a capacidade da mãe de fazer comentários e partilhar sua atenção com o entorno sem interromper o dedilhar no teclado do computador.

Em 1986 Helena se envolveu, juntamente com Eduardo Coutinho, na pesquisa e roteirização da série comemorativa de 90 anos do cinema brasileiro, que seria exibida na TV Manchete em 1988 com direção de Eduardo Escorel e Roberto Feith. Foi um trabalho de fôlego que durante dois anos ocupou 50 pessoas e exigiu a transcrição para vídeo de mais de 200 horas de material fílmico e um vasto levantamento iconográfico. Helena tomou depoimentos dos mais importantes diretores brasileiros, recolhendo um material que mereceria ser referência ainda mais reconhecida por historiadores e pesquisadores. Uma súmula desse trabalho, com ênfase no aspecto fotográfico, foi publicada no livro 90 anos de cinema – uma aventura brasileira (Metavídeo/Nova Fronteira, 1988).  

Leon Hirszman seria objeto de um programa escrito por Helena para a faixa Registro do canal Multishow em 1997. Prova da continuidade de seu interesse pelas questões da História e da política foi a publicação de As tribos do mal – O neonazismo no Brasil e no mundo (Atual, 1995). Nesse livro, Helena compila uma pequena história da intolerância no Ocidente, passando pela Inquisição, o fascismo, o fenômeno punk e chegando aos skinheads e à apologia da violência que assombrava o mundo em meados dos anos 1990. 

Pode-se dizer que o nexo entre cinema e política norteou toda essa última fase da carreira de Helena Salem. Sem jamais se pautar exclusivamente pela ideologia, ela porém não a deixava inteiramente de lado ao analisar as obras que tinha diante de si. Sua intimidade com as Ciências Sociais e com a militância contra o regime militar fazia dela uma crítica atenta e exigente. Exemplo disso é sua apreciação do filme O que é isso, companheiro? (1997), de Bruno Barreto. O texto, intitulado Filme fica em débito com a verdade histórica, é um dos mais citados sobre o longa, inclusive pelo jornal The New York Times, e foi publicado na coletânea Versões e ficções: O sequestro da história (Fundação Perseu Abramo, 1997). Eis um pequeno trecho característico:     

“Pode ser que muitos torturadores tenham tido crises existenciais como Henrique (o que é de duvidar, assim como todos os Eichmans da vida), mas os guerrilheiros dos anos 60 não eram tão ingênuos, tolos, caricatos, como são apresentados (à exceção de Fernando) no filme. Eram jovens que podem ter escolhido caminhos equivocados (como a realidade mais tarde iria revelar), mas eram generosos, indignados, sufocados pela ditadura nos seus anseios de liberdade, e alguns deles foram as cabeças mais brilhantes de sua geração. É essa generosidade, essa outra verdade que O que é isso, companheiro? não consegue revelar”.

Helena preparava um estudo abrangente sobre os intelectuais da Igreja Católica no Brasil junto com o cineasta José Joffily, com vistas a um documentário, quando um câncer linfático agravou-se drasticamente. Ela vinha lutando havia oito anos contra a doença sem nunca deixar-se abater. Morreu em 24 de agosto de 1999. Na cerimônia do shloshim, 30 dias após o funeral, Tatiana leu um texto em que, entre outras coisas, dizia como a mãe “adorava contar estórias: de sua família, trabalho, namoros, aventuras na guerra, encontros e desencontros. Havia as prediletas, que mamãe contava e recontava milhares de vezes. ‘Essa eu já contei?’ ‘Já, mas conta de novo’, respondíamos nós, sempre orgulhosas de ter uma mãe que tinha vivido tanto, que tanto tinha para nos contar.”    

7 comentários sobre “Helena Salem – entre o cinema e a política

  1. Texto mais lindo, profundo e abrangente, honesto… completo! – e COMO esclareceu coisas que estou pesquisando! Obrigada, “CarMattos”!!!

  2. Pingback: Helena Salem | História do Cinema Brasileiro

  3. Tive o prazer de conhecê-la mas por outras circunstâncias pouco convivemos. Sou sua eterna admiradora e agradeço a vida ter, em suas filhas, duas sobrinhas muito queridas, pelas quais torço e desejo suas felicidades, a cada momento que tenho a oportunidade. Lindo relato que me emocionou muito.

  4. Mais um comovente texto! Me emocionei, lembro-me bem Helena Salem na época da Embrafilme, da crítica do “O que é isso, companheiro?” ,notei que ela saiu da cabine pronta para escrever o que sentia, texto tão cheio de verdade que levou público aos cinemas para conferir e rendeu inúmeras matérias. Saudade, vou reler os livros . Meu abraço sertanejo.

  5. Maravilhoso texto de informação e reflexão (e emoção, pelo menos eu senti assim). Só li os dois livros dela sobre NPS e Leon, dá vontade de conhecer o que ela mais produziu.

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