Pílulas 37

REPARE BEM narra mais uma história amarga dos anos de chumbo brasileiros, para a qual nenhuma reparação é suficiente para curar as feridas deixadas em quem sobreviveu. Muito se tem falado da simplicidade técnica do filme de Maria de Medeiros. De fato, não há preocupações básicas como o controle de diafragma, a montagem faz inserções bruscas e inexplicáveis, a coisa é tosca mesmo. Mas a força do filme vem dessa mulher inoxidável, Denise Crispim, que domina a cena quase de ponta a ponta com sua capacidade de nos tocar e de tocar o nervo das coisas que relata. Ex-mulher do ativista Eduardo Leite, o Bacuri, barbaramente assassinado pela ditadura, ela narra uma saga familiar dilacerante sem deixar que a emoção turve a memória detalhista e a firmeza de propósitos. Mais que o roteiro claudicante, é ela que conquista nossa atenção e nosso engajamento minuto após minuto.

A ALMA DA GENTE não oferece maiores novidades ao modelo de documentário “dez anos depois”. É grande, sem dúvida, a simpatia dos meninos e meninas escolhidos como personagens principais no Corpo de Dança da Maré em 2002 e reencontrados em 2012 para a habitual checagem de destinos. É natural também que a estrutura meio plana e o clima otimista que predominam na preparação do espetáculo dirigido pelo coreógrafo Ivaldo Bertazzo em 2002 deem lugar a choques mais dramáticos quando chegamos à segunda fase. (atenção! spoiler) Há lugar para o desencanto, a vitória da banalidade e também alguns exemplos de afirmação da vontade artística. Não falta a morte como upgrade do documentário, tema que venho observando há algum tempo em muitos filmes. Esse tipo de abordagem sempre provoca reflexão e emoção, embora aqui a fórmula, de tão aparente, talvez revele mais a construção do filme do que a realidade de fundo.

Revi o incendiário e apocalíptico IF…, de Lindsay Anderson (1968). Não há termos de comparação com a suposta revolta juvenil de hoje em dia, mas como era mais fácil ter o inimigo bem claro na mira do seu fuzil, saber exatamente a que você se opõe e o que quer destruir. Como era romântica a insubordinação que não se escondia atrás de máscaras nem atendia a interesses escusos por trás dos cordões das marionetes. A própria linguagem do filme vai se desintegrando à medida que a guerra simbólica do desfecho se aproxima. Poucas vezes o cinema foi tão livre, subversivo e incisivo como nesses filmes anti-establishment ingleses dos anos 1960.

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