Docs: uma questão de foco

Fiz semana passada, em Vitória da Conquista (BA) e São Paulo, uma palestra sobre rumos do documentário brasileiro contemporâneo. A pedido de amigos, resumo aqui o conteúdo das minhas falas.

Para ilustrar o que considero algumas das principais mudanças recentemente ocorridas no doc brasileiro, recorri ao foco como metáfora. Fiz um recuo histórico até os anos 1960 e 70, quando, ao lado do Cinema Novo, prevalecia nos docs uma visão sociológica, como bem definiu Jean-Claude Bernardet. Os filmes, investindo numa abordagem totalizante da sociedade, costumavam tomar o particular pelo geral e tratar os personagens como representantes de classes ou grupos sociais. Eram operários, camponeses, imigrantes, fiéis de determinada religião, empresários, patrões, governantes etc. Em filmes como Viramundo, de Geraldo Sarno, Maioria Absoluta  e ABC da Greve, de Leon Hirszman, Opinião Pública, de Arnaldo Jabor, O País de São Saruê, de Vladimir Carvalho, e tantos outros, os personagens eram como que transparentes, pois remetiam aos grupos sociais aos quais pertenciam.

É o que chamo de “personagem fora de foco”, pois o interesse (o foco) do realizador não estava no indivíduo, mas no coletivo. Ilustrei esse momento (na Bahia apenas, pois em SP não havia tempo para clipes) com uma cena de ABC da Greve em que um operário é ouvido na porta de uma fábrica mas sua imagem, talvez por descuido do cinegrafista no improviso da filmagem, está fora de foco, deixando nítida a imagem da massa operária que sai da fábrica e passa por trás dele.

A primeira grande alteração que percebo nesse panorama se dá com Eduardo Coutinho, sobretudo a partir da repercussão alcançada por Santo Forte (1997). No “cinema de encontros“ de Coutinho, o indivíduo ganha proeminência sobre o coletivo. A sociedade é vista pelo prisma do cidadão identificado e individualizado. Os assuntos do cotidiano substituem os grandes temas sociais e políticos. Privilegiam-se os modos de vida, as crenças pessoais, as relações de parentesco e vizinhança. A essa conduta, que criou toda uma escola, empresto o nome de documentário antropológico, em oposição ao sociológico.

É como se Coutinho corrigisse o foco para ressaltar o indivíduo e deixar o fundo mais indefinido. Para ilustrar, mostrei uma cena de Santo Forte em que Dona Teresa hesita em responder se é feliz. Ela está dominando o quadro, em foco, enquanto sua casinha e o quintal com as roupas no varal ficam ao fundo, fora de foco.

O próprio Coutinho, ao incorporar e valorizar a autofabulação, o teatro de si mesmo, e levar isso ao extremo com Jogo de Cena e Moscou, ajudou a abrir caminho para o momento atual, em que o documentário assume sua intimidade com a ficção e a performance. Este, porém, é apenas um dos aspectos que me levam a classificar a linha dominante atualmente como documentário performático. Outras características são a utilização de recursos de linguagem antes associados exclusivamente à ficção e ao experimental (efeitos digitais, imagens incrustadas ou sobrepostas, alterações de velocidade, congelamentos, trilha sonora ostensiva, planos subjetivos, descontinuidades); e sobretudo a  ênfase na subjetividade, outrora tão reprimida no cinema documental. A subjetividade se expressa com frequência pelo uso de formatos ligados á comunicação pessoal: correspondência, diários, travelogues, autorretratos, conversas de família.

Há principalmente uma tendência a passar a informação mais através do estilo e da linguagem e menos por uma retórica expositiva tradicional. Não basta a ideia de um bom senso ético, político ou o que seja, pois a subjetividade e as afetividades tornam mais complexo o conhecimento do mundo – um conhecimento que passa pela experiência pessoal, pela memória e pelo envolvimento emocional. O mundo é mais que a soma de suas evidências visíveis. Tudo isso leva o documentário a atrair uma grande atenção para si mesmo, tanto quanto para o seu tema. De alguma maneira, o filme vira assunto de si próprio em igual medida.  Daí minha impressão de que a ênfase hoje não mais recai sobre quem ou o que está ou não em foco, mas sobre o foco mesmo.

Esta, claro, é uma ideia metafórica. O foco, no caso, é o uso da linguagem. Mas é também o foco ótico de verdade, na medida em que uma poética vinda da videoarte e do experimentalismo lida com uma certa indefinição da imagem até mesmo para exprimir os limites e o caráter pessoal da abordagem documental contemporânea. Na palestra, ilustrei essa passagem com um trecho de Elena, de Petra Costa, em que a diretora filma a si mesma enquanto fala da irmã, num processo de espelhamento e alteridade ambígua. As imagens estão fora de foco, envoltas em halos de luz ou na obscuridade, descontínuas, repartidas. É, portanto, o estilo que informa sobre essa relação entre as duas irmãs, bem mais do que aquilo que é simplesmente dito ou evidenciado no conteúdo da imagem.

Outros docs performáticos recentes apresentam uma grande quantidade de imagens fora de foco, seja por circunstâncias técnicas do equipamento utilizado, seja por opção expressiva. Basta lembrar de Jards, de Eryk Rocha, Otto e outros de Cao Guimarães. De alguma maneira, esses trabalhos investem na visualização do invisível (a perda, o processo criativo, a gestação) e admitem, através de uma certo não ver, que não mostrar às vezes é mostrar por dentro.

Essa minha concepção de foco pode aludir ainda a quem manipula a câmera. Quando Paulo Sacramento passa o equipamento aos detentos em O Prisioneiro da Grade de Ferro, Gabriel Mascaro aos filhos dos patrões em Doméstica, ou quando Marcelo Pedroso reúne as filmagens dos turistas em Pacific ou deixa câmeras nas portas de desconhecidos em Câmara Escura, o que lhes interessa é quem filma, tanto quanto o que é filmado.

Cito ainda o cinema estrutural de Carlos Adriano – uma espécie de cinema do cinema, lidando com a matéria cinematográfica como tema – e um trabalho ousado como Os Cavalos de Goethe, de Arthur Omar, em que o slow motion e a massa sonora composta por música e poesia falada recriam uma cavalhada afegã em forma de suíte audiovisual. Exemplos como esses expandem o campo do doc performático e constituem singularidades em termos de linguagem.

Aproveitei a oportunidade dessas palestras para falar um pouco do desenho de som, mais um elemento dessa onda performática. O tratamento sonoro dos docs mais criativos nos últimos anos tem combatido o naturalismo e a prevalência do verbal sobre os demais sons da trilha. Música, ruídos e falas ganham atenção inédita entre nós e praticamente se equiparam na hierarquia sonora de filmes com sound design de O Grivo, Aurélio Dias, Edson Secco, Miriam Biderman, Ricardo Reis e outros artistas da área. Mais que uma equiparação de valor, esses três tipos de som vêm se equiparando em termos de natureza mesmo: falas e ruídos tendem a virar música, a música se situa na fronteira dos ruídos ambientais. O som é tão plástico quanto a imagem, podendo ser moldado e recriado com grande liberdade.

Nesse caso, usei como ilustração uma sequência de Estrada Real da Cachaça, de Pedro Urano, que trata das histórias de ouro enterrado e assombrações. A edição rítmica e intrigante das imagens dialoga com uma pequena suíte (desenho de som de Aurélio Dias) composta por ruídos de labaredas, vento, canto tibetano e vozes desencarnadas que remetem ao assunto em fragmentos espaçados. O efeito é poderoso na sugestão do sobrenatural e dos ecos de uma fabulação típica do lugar.       

O foco no som é também componente desse documentário performático que salta aos olhos na produção contemporânea, embora outras formas mais clássicas continuem a ser produzidas e até mais presentes no mercado.

6 comentários sobre “Docs: uma questão de foco

  1. “Construção” faz parte do teu primeiro parágrafo. Não ? Foi um filme muito importante…

  2. Penso que faltou um foco crítico na montagem ela é fundamental nesse desenvolvimento todo. inclusive muitos dos recentes documentários citados já saem da ilha de edição com desenhos sonoros muito bem indicados e desenvolvidos para uma posterior espacialização e mixagem. Abraço

  3. Muito bom, Carlinhos.

    Acho importante a reunião dos teus textos sobre docs brasileiros. Certamente haverá editora interessada.

    Grande abraço,

    Fernando

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s