O Stradivarius da fotografia

A noite de abertura do 46º Festival de Brasília contou ontem com pelo menos três fatos alvissareiros: uma chuva que vinha sendo esperada há meses na sequíssima capital, um concerto com belíssimos solos de um Stradivarius autêntico e um pequeno grande documentário sobre Sebastião Salgado.

Nacionalistas mais ferrenhos desdenharam a escolha da Orquestra do Teatro Nacional Claudio Santoro para a apresentação festiva, sob a regência do maestro Claudio Cohen: o concerto para violino e orquestra de Erich W. Korngold. Um compositor hollywoodiano na Sala Villa Lobos para abrir um festival de filmes brasileiros?! De minha parte, adorei. Vi ali o “país cinema”, além de me deliciar com os solos quase ininterruptos do violinista austríaco (como Korngold) Benjamin Schmid num legítimo violino Stradivarius.

A noitada prosseguiu com um Stradivarius da fotografia. Eu tinha muita desconfiança do título do doc de Betse de Paula, Revelando Sebastião Salgado, ganhador do Prêmio Especial do Júri em Gramado e exibido em Brasília fora de competição. Achava-o pretensioso e arriscado. Mas depois de ver o filme consigo justificá-lo quase plenamente. A partir de apenas três jornadas de entrevistas na casa do fotógrafo em Paris, Betse conseguiu de fato revelar diversas facetas – algumas praticamente desconhecidas – de Salgado. O filme é um perfil biográfico, que cobre desde a descoberta da fotografia, quando ele levava uma câmera para clicar informalmente suas viagens de economista pela Organização Mundial do Café, em fins dos anos 1960, até o mais recente trabalho monumental, o projeto Gênesis.

As circunstâncias que o levaram a fotografar minuciosamente o atentado a Ronald Reagan em 1981, trabalho que culminou sua consagração no mundo do fotojornalismo, nunca foram relatadas com tantos pormenores. Histórias fascinantes como sua amizade com o rei da Bélgica, os problemas que enfrentou em Serra Pelada e a condição de exilado político durante a ditadura são contadas em depoimentos bem-humorados e cheios de verve fabulatória.

Ao mesmo tempo, o filme é uma master class sobre fotografia que não pode deixar de interessar a nenhum apreciador do métier. Salgado fala de sua opção exclusiva pelo preto e branco a partir de 1987, de como combina a fotografia digital com procedimentos tradicionais da foto analógica e exibe/explica seus arquivos impecavelmente organizados. O hábito de cantarolar enquanto fotografa ou examina seus contatos é um dos traços que o filme não só menciona, como de fato mostra.

Não há, porém, imagens em movimento de Salgado na ação de fotografar. Elas existem, mas estavam todas reservadas para o filme que Wim Wenders está fazendo sobre o projeto Gênesis. Betse de Paula trabalhou com algumas limitações em função disso, mas o filme não se ressente, uma vez que compensa certas ausências com outras tantas presenças inestimáveis. Salgado aparece em ação nas fotos de sua mulher e colaboradora, Lélia Wanick Salgado, trabalho este que acaba sendo revelado pelo filme. Outro elemento compensatório fundamental é a intimidade que permitiu um tom bastante descontraído nas entrevistas (as famílias da cineasta e do fotógrafo são amigas há mais de 20 anos).

Tão importante quanto as revelações históricas e técnicas é a revelação de um homem meticuloso a nível quase maníaco, que a visita ao apartamento deixa entrever. Salgado dá mostras de obsessão por limpeza, ordem e equilíbrio. Fala de sua relação com o filho portador de Síndrome de Down e expõe sua admiração por grandes colegas ao mostrar as fotos deles penduradas pelas paredes de sua casa.

O público de cerca de 1500 pessoas que aplaudiu vivamente o filme ontem no Teatro Nacional estava prestigiando também o cuidado com que foram tratadas as imagens e os sons. A fotografia de Jacques Cheuiche encontrou matizes discretos entre a cor e o PB, evitando “competir” com as fotos de Salgado mas também homenageando as preferências dele. A edição sonora de Virginia Flores pontuou o filme com ruídos sugestivos que ampliam a imersão no trabalho do fotógrafo, juntamente com a trilha sonora de Naná Vasconcelos. A montagem de Dominique Paris não esconde o caráter de filme-entrevista, mas o dinamiza de maneira extremamente agradável.

Saber ser um documentário pequeno pode levar a ser um grande documentário. Nesse sentido, Revelando Sebastião Salgado se aproxima da experiência de pureza documental e sábia simplicidade que vimos em A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos. Desde que se tenha, claro, a música do Tom ou as fotos do “Tião”.    

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