1984

Na televisão Tancredo Neves conclama os jovens à tarefa cívica de ajudar seus pais a cuidar do país. Num colégio de Salvador, os adolescentes se dividem entre a defesa de um socialismo libertário com tintas anarquistas e a catarse desrepressora dos baseados, do rock e dos shows transformistas. Estamos em 1984, no alvorecer da Nova República, época em que a estudantada ainda cantava Vandré, rodava seus panfletos e fanzines em mimeógrafo, e criava rádios piratas para expressar sua inconformidade com a democracia meia-bomba que se instalava no país.

Depois da Chuva, concorrente baiano na competição de longas de ficção no Festival de Brasília, é uma encarnação perspicaz de um momento raramente abordado no cinema brasileiro pela perspectiva do ativismo estudantil. No centro do furacão está o menino Caio (Pedro Maia), personagem bertolucciano até a medula. Ressentindo-se da ausência do pai, morando com uma mãe com quem não tem diálogo, ele deriva entre o tédio, a doçura e uma revolta surda que o leva a ser ameaçado de expulsão da escola. À sua maneira, vai se tornar uma liderança capaz de contestar outro líder mais engajado.

Os diretores Cláudio Marques e Marília Hughes criam uma narrativa lacunar, mas que se organiza principalmente na deambulação de Caio. Os encontros dele com uma protonamorada (Sophia Corral) são particularmente encantadores, com diálogos juvenis muito plausíveis e uma química notável entre os dois ótimos atores. Em outros momentos, a direção não obtém a mesma fluidez, sobretudo quando parece optar por uma desdramatização um pouco forçada.

De alguma maneira, Depois da Chuva dialoga não só com os filmes “jovens” de Bertolucci, Assayas e Ken Loach, como também com a realidade brasileira atual, quando mais uma vez a juventude se questiona sobre o seu papel numa democracia que não atende a alguns de seus mais fortes anseios. Não se trata de comparar 1984 com a atualidade, claro, mas de identificar um impulso semelhante, que tem a ver tanto com o prazer de viver quanto com o desejo de participação social.

Um pouco sobre os curtas de ficção e animação da noite de ontem. Ryb, de Deco Filho e Felipe Benévolo (Brasília), é um exercício em animação 3D sobre rãs coloridas que se multiplicam num laboratório provocando o caos. Tecnicamente bem feito, o curtinha de quatro minutos resulta bastante confuso como roteiro. Já Lição de Esqui, de Leonardo Mouramatheus e Samuel Brasileiro (Ceará), é um ensaio de ficção em camadas, em que dois amigos treinam a maneira como vão encenar uma briga no supermercado onde trabalham para fazer jus a um certo seguro e viajar para o Canadá (se é que entendi bem a proposta). O filme se estende em cenas repetitivas e vazias, planos carregados de pretensão, evidenciando uma superestimação do próprio argumento para além do que ele pode render. Questão, aliás, que tem sido muito frequente em boa parte dos curtas de ficção live action de realizadores jovens e mais ambiciosos.

2 comentários sobre “1984

  1. Ou seja: Depois da Chuva tem tudo haver com minha estória. Resta saber…como vê-lo ? Quando vê-lo ? Onde vê-lo ? Beijos

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