UPP vivenciada

Um belo filme e uma bela discussão entram hoje em cartaz. Morro dos Prazeres, de Maria Augusta Ramos, documenta o cotidiano daquela comunidade um ano depois de instalada a UPP local. O tema é o mesmo de Justiça e Juízo, filmes com os quais Morro completa uma trilogia: relações entre cidadãos pobres e o sistema policial-judiciário. O assunto UPP é comumente objeto de debates acalorados entre os que defendem seu modelo de pacificação, apesar de imperfeito e incompleto, e os que o atacam como mais uma forma de opressão policial e imposição de uma ordem contrária aos hábitos da comunidade.

Morro dos Prazeres quer dar uma visão matizada da ocupação policial. Do processo de observação, seleção e montagem do filme emergem os vários ângulos da favela ocupada pela UPP: a moradora que reclama da pouca vigilância dos policiais e aqueles que se queixam do oposto, ou seja, da ocupação fardada que ainda provoca rejeição; o carteiro e orientador de adolescentes, que atua como uma espécie de ponte entre moradores e policiais; as conversas entre agentes da ordem, as rondas pelas vielas, as revistas rotineiras, a retórica de comunicação do coronel instrutor, o depoimento de uma policial que prefere esconder sua condição fora do serviço por medo de preconceitos.

Não há tomadas de posição nem separação clara entre vítimas e vilões. Moradores e policiais aparecem igualmente humanizados, na vida ou na morte, o que pode causar espécie aos que veem em toda pessoa fardada uma ameaça. O efeito gerado por essa aparente neutralidade é desconstruir discursos cristalizados e maniqueístas.

A excelência de concepção e de técnica rendeu ao filme os prêmios de melhor direção, fotografia (Gui Gonçalves e Leo Bittencourt) e som (Felippe Schultz Mussel) para longas documentais no último Festival de Brasília. O trabalho da diretora parte da observação wisemaniana mas avança na fronteira entre o flagrante e  a cena propiciada contando com a presença da câmera. Isso requer, naturalmente, um acesso combinado às situações, até porque a composição do quadro e o padrão técnico que Maria Augusta procura não seriam possíveis em procedimentos mais improvisados. Isso gera a impressão ambígua de um filme “autorizado”, o que não deixa de ser verdade, mas é também a garantia de um acesso mais amplo e detalhado aos procedimentos da UPP e às rotinas da comunidade. Morro dos Prazeres acumula insights, elege calmamente seus personagens condutores e faz o espectador imergir paulatinamente na atmosfera do lugar.

Se os dois documentários anteriores se passavam quase inteiramente em recintos fechados (fóruns e presídios), ambientes que forjavam uma visão quase teatral do assunto, e baseavam-se muito pouco em diálogos, Morro dos Prazeres é bem diferente nesses aspectos. A diversidade de situações e a filmagem em externas demonstram o domínio da dramaturgia por Maria Augusta Ramos em circunstâncias que só os seus filmes mais antigos, e menos conhecidos, comprovavam.

Ela não está interessada no morro pacificado como espetáculo, mas como lugar de vivências, negociações, espera e tentativa de se construir uma normalidade. O que vemos é sobretudo uma favela relativamente silenciosa, entregue à rotina, como ocorre na maior parte do tempo.

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