Ana e os outros

Os dois últimos filmes da documentarista paranaense Ana Johann têm uma interessante particularidade em comum: são filmes mais sobre o desejo de retratar um personagem do que a realização plena desse objetivo. Dito assim, parece a definição de um fracasso. Mas o que acaba surpreendendo é como ela retira dessa aparente irrealização o charme e a poesia de cada documentário.

O curta Notícias da Rainha parte do desejo de uma filha de escrever um livro sobre sua mãe, uma antiga cantora, eleita Rainha do Rádio no Paraná em 1948. Ana retirou todo aspecto arquivístico do projeto e transformou-o numa evocação teatral da personagem. Filmou no palco do Teatro Guairinha, convertido numa espécie de instalação por onde passam, em bela luz recortada, fotos e objetos sugestivos de diversas fases da vida de Lúcia Cecília Kubis. A atriz Rosana Stavis encarna uma personagem múltipla que inclui uma narradora de rádio, uma cantora e a voz da filha. Elementos da história são contados em paralelo com fatos da vida de Elizabeth II, a outra rainha que nasceu no mesmo ano que Lúcia.

Há todo um aparato cênico para ambientar as falas da própria Lúcia, também presente no palco. Ela relata seus sucessos enquanto a filha/atriz fala do pai ausente. Um discurso complementa sutilmente o outro, mas nada que evite o aspecto lacunar do filme, sua circunstância de lembrança precária. De alguma maneira, Ana Johann coloca-se também no lugar da filha que várias vezes tentou entrevistá-la para o livro e não obteve respostas. O palco do teatro é local de retorno e condensação possível de uma experiência que se perdeu no tempo, já que só uma gravação de Lúcia foi até então recuperada. Essas notícas da rainha são um vestígio iluminado.

O longa Um Filme para Dirceu, prêmio especial do júri no Festival de Brasília de 2012, é um trabalho ainda mais peculiar, pois nasceu do desejo de um jovem sanfoneiro sertanejo de fazer um filme de ficção remotamente inspirado em sua própria história. Dirceu Cieslinski procurou Ana para dirigir (os dois na foto do alto). Ela não se interessou pela ideia, mas propôs em troca fazer um documentário sobre ele, ou sobre o processo de fazer um filme com/para ele.

Dirceu passa o filme de Ana inteiro tentando fazer o seu filme. Procura captar recursos, apresenta-se em shows para fazer caixa, imagina uma história de correrias caipiras em que coubessem pelo menos três romances. Ele tem as pernas atrofiadas e uma simpática mistura de singeleza e perseverança. Ana o acompanha, incorporando a ingenuidade do personagem ao estilo do filme. Documenta seu encontro com o ídolo Teodoro Sampaio. Realizam juntos algumas cenas do filme imaginado, que aparecem com tratamento diferenciado. A relação dos dois evolui para uma cumplicidade meio marota. Embora Ana venha a se tornar confidente dele, fica a impressão de que cada um esconde do outro algo essencial. Afinal, seus projetos no fundo não coincidem.

O que temos, ao fim e ao cabo, é o perfil de um self-made man humilde que quer viver da música mas vai ajustando a vida à modéstia dos resultados. E um documentário que parece uma vampirização afetuosa em mão dupla. O filme de Ana para Dirceu é também o filme que Dirceu proporcionou a Ana. Os desejos de cada um estão à frente de qualquer consecução.    

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