Anatolia, Disney e uma menina inesquecível

Numa das cenas finais de ERA UMA VEZ NA ANATOLIA, o belo filme do turco Nuri Bilge Ceylan em cartaz no Instituto Moreira Salles, um cadáver é submetido à autópsia. Não vemos o corpo sendo cortado e dissecado, mas somente as expressões faciais do legista, seu esforço em remover os órgãos, e o olhar do médico que acompanha os trabalhos. É um primor de uso do extra-quadro. Mas o filme inteiro, no fundo, é assim: enquanto investigam um crime, os homens investigam na verdade os seus próprios sentimentos e culpas. Nada do que acontece é mostrado, mas apenas os rebatimentos na consciência de cada um. O gênero policial é usado como pretexto para um exame de dramas íntimos, dos quais o crime em questão parece um espelho enviesado. Pode não ser o melhor filme do grande Ceylan, pode parecer estendido e vago demais para os impacientes, mas é como se passássemos uma noite densa dentro de sonhos alheios.

WALT NOS BASTIDORES DE MARY POPPINS recebeu muitas indicações de prêmios da indústria mas não ganhou quase nada. É o tipo do filme-quase. Quase evoca uma comédia antiga de Howard Hawks em sua parte inicial, a mais engraçada, em que se estabelece o choque cultural de P. L. Travers com o mundo de Disney. Quase revela alguma coisa do processo criativo nos estúdios do Mickey, mas acaba ficando na camada mais superficial. Quase emplaca um bom drama psicológico sobre as origens dos personagens de Mary Poppins e da personalidade da escritora no contato infantil dela com o pai inventivo e alcoólatra. Pena que tudo estacione no quase. A estrutura em flashbacks fica rapidamente esquemática, enquanto as relações entre background vivido e invenção ficcional nunca se estabelecem de maneira convincente. Os personagens bidimensionais ganham contornos de papelão. O que pareceu interessar mais aos roteiristas foi explorar as manjadas diferenças entre a fleugma britânica e o consumismo americano, matéria das melhores cenas, ainda que déja vu. Tom Hanks não tem muita chance de brilhar nem consegue detalhar a figura de Disney. Já Emma Thompson empresta sua verve caricata a um papel adequado e se sai muito bem. Os figurinos também são de primeira, assim como a recriação da Disneylandia de 1961. De resto, é aquela impressão de produção televisiva com o selo de qualidade da BBC. Um filme quase bom.

Depois da Semana dos Realizadores de 2012, não voltei a ver ELES VOLTAM, de Marcelo Lordello, que entra hoje em cartaz. Mas guardo uma primeira impressão inesquecível. Na época escrevi que Lordello conta uma história mínima, mas de tal maneira transversa, envolvente e surpreendente que ficamos permanentemente conectados. Há alguma coisa de miraculoso naquelas atuações interiorizadas, naqueles planos incomuns do grande fotógrafo Ivo Lopes Araújo, naquela relação tão intrigante entre atores e espaços. Conta-se o aprendizado de mundo e o despertar da consciência de uma adolescente, mas isso vem da forma mais sutil possível. O que vemos o tempo todo é a vida simplesmente passar para ela, enquanto um mundo paralelo se expande em nossa imaginação.

Violência policial e racismo são as questões básicas de FRUITVALE STATION. A gente sabe desde o início, mas elas demoram tanto a se colocar no filme que a gente até esquece. Na verdade, esse é um fait-divers da crônica policial da grande San Francisco engordado pela crônica naturalista e muito estendida de uma família negra de classe média baixa. O roteiro se esmera em pintar o protagonista como um bom filho, bom pai, bom marido e bom amigo, qualidades apenas levemente perturbadas por uma passagem pelo tráfico e uma escapada conjugal sem importância. Isso soa um pouco idealizado e contamina a denúncia pretendida. No mais, o estilo de Ryan Coogler, mesmo abusando da câmera na mão e de uma pegada documental, me pareceu mais jogar água na fervura do que botar a panela para ferver. O sentimentalismo está sempre à espreita, embora não chegue a se instalar. Enfim, a receita certa para ter ganho Sundance.

Assisti finalmente a A GAROTA IDEAL (Lars and the Real Girl), de Craig Gillespie. Em alguns aspectos, me pareceu tão ou até mais interessante que “Ela”, de Spike Jonze. O introvertido Lars (Ryan Gosling) não admite qualquer contato físico com outra pessoa e descobre que pode namorar uma boneca de plástico comprada pela internet. Mais que isso, ele procura contagiar familiares e toda a sua comunidade com a atenção que dedica à boneca. A história evolui para uma fábula surrealista na medida em que o estranho casal parece ser assimilado por todos, inclusive o padre e a psiquiatra. Cria-se então um jogo de aparências divertido, apesar de doentio. A diferença para “Ela” é que não se trata de uma fantasia meramente eletrônica, mas de uma parábola sobre os fetiches substituivos na sociedade americana. Este é um filme psicológico, enquanto o de Jonze abole a pisocologia em troca de uma simples história romântica. O roteiro original de Nancy Oliver também foi indicado ao Oscar e Ryan Gosling, numa performance fenomenal, concorreu a quase todos os prêmios de 2007. Um detalhe curioso: a boneca Bianca é apresentada como brasileiro-dinamarquesa.

2 comentários sobre “Anatolia, Disney e uma menina inesquecível

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