Caçadores de ontem e de hoje

CAÇADORES DE OBRAS-PRIMAS tenta uma operação mais difícil do que salvar as obras de arte das garras dos nazistas. Tenta ser ao mesmo tempo um filme histórico, uma aventura cívica e uma comédia de guerra. O resultado é uma meia-bomba em todos os aspectos. A História não parece ser levada a sério como deveria. A aventura perde o ritmo a cada cinco minutos. E a comédia parece ter sido criada por alguém que morreu antes de ver “Mash”. George Clooney nunca esteve tão apático na direção, nem tão colado a uma ideia de heroismo à americana. Prevalece uma visão piegas da “grande arte” para agradar à consciência do público médio. Os personagens não têm consistência individual nem se impõem como grupo. Os atores típicos são mal aproveitados. Já a direção de arte, minuciosa, foi o que mais me agradou nesse filme quadradão e de intenções desconexas. Na última cena, Clooney escalou o pai numa ponta autobiográfica que explicaria sua admiração pelo episódio dos Monuments Men.

Não é somente pela assinatura de José Padilha que ROBOCOP ecoa “Tropa de Elite”. O roteiro parece ter sido escrito sob medida para o diretor. Lá estão os temas da corrupção na polícia, da busca da perfeição no cumprimento armado da lei, do herói forjado a contrapelo da ética, do uso da violência desmedida e da tortura, do policial em crise com sua família. Ou seja, Robocop e Capitão Nascimento são primos de primeiro grau. Padilha não se sai mal na gramática do filme de ação americano, e ainda imprime um traço meio urgente e sujo na forma como Lula Carvalho enquadra e move sua câmera nas cenas mais movimentadas. De resto, é o bom artesão que já conhecíamos. Não gosto das caracterizações um tanto picaretas de Samuel L. Jackson (o apresentador de TV) e Michael Keaton (o chefão da Omnicorp), justamente os personagens que mais procuram enfatizar a crítica às corporações e à mídia conservadora. Essas críticas estão no espectro tolerável do sistema de entretenimento hollywoodiano, não havendo aí nenhuma ousadia especial. O filme não me despertou qualquer entusiasmo, mas tampouco me decepcionou além das minhas expectativas medianas.

Um comentário sobre “Caçadores de ontem e de hoje

  1. Meia-bomba total. Chega a irritar. Filme de encomenda. Pena que a cultura da Mesopotâmia não estava nessa. Perfeita análise. Pedro Rosa.

    Via iPhedro

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