Quatro documentários

Notas sobre quatro docs que vi recentemente mas, até onde eu sei, não foram distribuídos no Brasil.

CROSSFIRE HURRICANE é uma biografia ultra-oficial dos Rolling Stones dirigida por Brett Morgen em 2012 para a TV, mas que teria bom trânsito nas telas de cinema. É um bólido psicodélico que não deixaria bonequinho nenhum dormir na poltrona. O caráter oficial vem do fato de que não há qualquer perspectiva externa à do próprio quarteto, aliás produtores do filme. A cornucópia de materias de arquivo foi organizada a partir de uma entrevista concedida somente em áudio pelos Stones ao diretor, às vésperas do cinquentenário da banda. Assim sendo, trata-se de uma autobiografia ilustrada em que não há espaço para outras vozes nem outros personagens que não eles. O roteiro de edição segue uma estrutura em módulos que poderiam ser chamados assim: Irreverência – Criação – Desbunde – Violência – Tragédia – Retiro – Afirmação – Introspecção – Diversão – Maturidade. Vemos então os anti-Beatles se transformarem sucessivamente em símbolos sexuais, catalisadores da insatisfação juvenil, inimigos da ordem e ícones pop indestrutíveis. Para além de qualquer sanitização promovida nas histórias e registros, chama atenção a união do trio original (Mick, Keith, Charlie) através de tanto tempo de loucuras, drogas e dinheiro aos montes. Uma frase de Keith Richards pode justificar tudo: “Nunca deixe a verdade estragar uma boa história”. Ao menos uma verdade fica clara com esse filme: nenhuma banda de rock fez as câmeras sacolejarem tanto como os Rolling Stones. 

Keanu Reeves até que não se sai mal como produtor e entrevistador do documentário SIDE BY SIDE, de Christopher Kennealy (2012). Cheio de papéis na mão em vez de um tablet, como seria mais adequado, ele interroga diretores e técnicos sobre a convivência de cada um com o sistema de produção de cinema na era digital e as diferenças em relação aos tradicionais métodos fotoquímicos. Há os intransigentes, como o célebre fotógrafo Vilmos Zsigmond, que parece nunca ter apertado o botão de uma câmera de vídeo; os entusiastas do digital, como James Cameron, George Lucas e os irmãos Wachowski; e os cautelosos, como David Lynch, para quem os processos antigos requeriam mais atenção de todos os envolvidos. A rede de depoimentos e trechos de filmes ilustra as questões do analógico x digital desde as filmagens, passando pela edição, os ajustes de cor, efeitos especiais, exibição, hábitos de consumo e até a conservação de filmes. São inventariadas as principais evoluções na produção de câmeras e (bem menos) equipamentos de edição. Ninguém arrisca dizer que a película sobreviverá a mais dez anos, a não ser como exceção. Mais que isso, o discurso nostálgico de elogio ao celuloide vai cedendo lugar a um misto de aceitação e euforia com a resolução cada vez mais alta das câmeras e a aproximação cada vez maior da imagem digital aos requintes da “fita”. No quesito exibição, é interessante ver gente boa de Hollywood se queixar da má qualidade das cópias digitais nos cinemas de lá. Se eles vissem como algumas chegam aos cinemas brasileiros, certamente diriam “That’s NOT entertainment!”

O famoso documentário grego CATASTROIKA, sobre os efeitos devastadores da megaprivatização recente na Europa, é um exemplo de como o cinema pode ilustrar um sintoma político-econômico de tal magnitude tentando cercá-lo por todos os lados. Temos uma narração onisciente que descreve a “liquidação” de países inteiros como a Rússia, a antiga Alemanha Oriental e a Grécia, com os cargos políticos sendo progressivamente ocupados por representantes do sistema financeiro internacional. Temos depoimentos de pensadores como Slavoj Zizek, Naomi Klein e o cineasta Ken Loach analisando as origens da catastroika na era Thatcher-Reagan e seus desdobramentos atuais no endividamento como ferramenta de dominação e na perda de democracia na União Eiropeia. Temos uma avalanche de imagens ilustrativas e metafóricas colhidas em várias partes do mundo, que desfilam céleres pela tela. Tudo desafia a capacidade do espectador de seguir raciocínios conceituais e visuais. O modelo é semelhante ao de “The Corporation” e “Inside Job”, mas sem a mesma força e capacidade de mobilização. Algumas falas ecoam depois do filme, como a contradição levantada por Zizek (“o neoliberalismo só foi possível com o aumento da presença do estado na economia”) e a definição de outro entrevistado (“a regulação é a aplicação da democracia à economia”). Quando nada, isso ajuda a pensar questões que ainda estão presentes entre os nostálgicos do império do mercado.

Hoje fiz uma autêntica dobradinha marítima. Depois de encarar o porre aquático “Até o Fim”, emendei com o festejado documentário LEVIATHAN, de Lucien Castaing-Taylor e Verena Paravel. Eles são antropólogos e cineastas. Nesse filme, tentam dissolver as fronteiras entre o doc etnográfico e o filme experimental. Observam com suas câmeras o dia-a-dia (melhor dizendo, noite-a-noite) de um barco pesqueiro na costa de Massachussets. O filme é filho distante do clássico “Drifters”, de John Grierson, mas com uma abordagem hiperrealista em que a pesca industrial, em vez de objeto poético, aparece como fato quase monstruoso. Com frequência, as imagens se descolam do mero registro para se tornarem quase abstratas. O som é igualmente poderoso, gerando uma experiência imersiva que não tem muitos paralelos no cinema contemporâneo. Não há diálogos nem narração, mas tão-somente a fúria do mar, a agonia dos peixes e o trabalho árduo dos homens. Os diretores, também responsáveis pela fotografia e a montagem, colocam câmeras em locais inimagináveis e oferecem uma experiência única, radical, em que se minimizam as diferenças entre céu, mar e máquinas; aves, peixes e homens. Um filme duro, brilhante e espantoso.

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