É Tudo Verdade: Um Homem Desaparece

O filme passa hoje (quarta) no CCBB-Rio às 18h em sessão seguida de encontro com o cineasta japonês Yoju Matsubayashi. Ele foi discípulo de Imamura formado pela Imamura Shohei Film School e dirigiu o documentário Os Cavalos de Fukushima, presente na mostra O Estado das Coisas. Mediação de João Luiz Vieira.

Rodado em 1967, no auge da Nouvelle Vague japonesa, Um Homem Desaparece tem o ímpeto experimental típico da época: cenas descontínuas em preto e branco (Godard), o tema do desaparecimento (Antonioni) e a incorporação do processo de fabricação dentro do documentário (Rouch). Mas, em termos de fundir realidade e ficção, seu pioneirismo só rivaliza com o de Jim McBride, no mesmo ano, com o seu David Holzman’s Diary. Nesse filme, McBride misturava fatos de sua vida e sua visão do mundo com a história fictícia de um cineasta empenhado em fazer um documentário em primeira pessoa.      

Shohei Imamura parte de uma ocorrência aparentemente real: um dos muitos casos de desaparecimento misterioso que ocorriam no Japão à época. Um documentarista, acompanhado da noiva do desaparecido, começa uma investigação sobre o paradeiro do homem. Eles entrevistam patrão, companheiros de trabalho, amigos, parentes e vendedores. Vão buscar ajuda num centro espírita e numa vidente. Há um quê de Cidadão Kane na forma como o perfil de Tadashi Oshima vai sendo construído à base de informações incertas e contraditórias. Mas logo o espectador começa a perceber que o destino de Oshima não é a única coisa misteriosa por ali. O próprio filme se revela um objeto enigmático e contraditório. O som nem sempre se adequa à imagem, entrevistas entram e saem de sincronia, as locações são improváveis, personagens são filmadas com tarja nos olhos para dali a pouco aparecerem sem tarja.

Imamura usa as ferramentas do cinema-verdade para instabilizá-las. Aos poucos, Tadashi Oshima “desaparece” também dentro do filme, cedendo lugar a uma longa discussão sobre a rivalidade entre Yoshie, a noiva, e sua irmã. Desavenças de família se refletem numa disputa pelo amor de Oshima, envolvendo uma série de testemunhas. Num dado momento, uma aproximação amorosa entre Yoshie e o documentarista introduz outra variável que afasta cada vez mais o projeto da sua intenção original.

A evolução desse jogo de cena conduz a um ato final de completa dissolução do aparato documental. Imamura não só entra de verdade no quadro, como também questiona a capacidade do cinema de dar a conhecer alguém ou trazer de volta o que definitivamente desapareceu.

P. S. Note-se que Oshima é o sobrenome de Nagisa, estrela máxima da Nouvelle Vague japonesa (“nuberu bagu”).

Veja o trailer de Um Homem Desaparece:

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