O sorriso do gavião

O Desconhecido Conhecido será reprisado domingo, às17h, na mostra Errol Morris – A Vida Real Cabe no Bolso, na Caixa Cultural RJ

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São muitas as frases memoráveis, no bom e no mau sentido, que Errol Morris extrai de Donald Rumsfeld diante da tela do Interrotron no seu último filme, O Desconhecido Conhecido (The Unknown Known). Algumas delas:

“Tudo parece incrível em retrospecto”
“Toda generalização é falsa, inclusive esta”
“Nós (os EUA) não assassinamos presidentes”
“Não tenho obsessões, mas uma abordagem muito ponderada e nuançada”
“Pearl Harbour foi uma falha de imaginação da nossa segurança. Depois do 11 de setembro, não podíamos mais repetir isso”
“Não podemos repetir erros do passado. Temos que cometer erros originais”.

E a melhor de todas:

“Se eu podia ficar em pé durante 8 a 10 horas por dia, por que um prisioneiro de Abu Ghraib não podia sofrer a tortura de ficar em pé por algumas horas?”

Eis o autorretrato do “arquiteto silencioso”, o gavião conservador que puxou a política americana para a direita durante quatro décadas. Congressista nos anos 1960, ele passou pelos governos de Nixon, Ford e W.Bush, nos dois últimos como Secretário de Defesa. Morris pauta sua longa entrevista em célebres memorandos que Rumsfeld ditava num gravador para sua equipe. Existe um arquivo com supostos milhões deles.

Como Robert McNamara no oscarizado Sob a Névoa da Guerra, Rumsfeld é levado a repassar sua carreira e questionado sobre os aspectos mais polêmicos de sua trajetória. A tudo ele responde sem alterar muito o semblante, e sempre terminando com um sorriso maquiavélico. Para negar que o Pentágono tolerasse tortura por afogamento em Guantánamo, ele aponta que a CIA, esta sim, matou três pessoas daquela forma. Indagado por que simplesmente não mandou matar Saddam Hussein em vez de invadir o Iraque, ele primeiro nega essa intenção para depois admitir que tentou no episódio da fazenda Dora, mas falhou vergonhosamente, matando um punhado de pessoas no lugar de Saddam.

Enfim, o filme contém o reconhecimento de diversos crimes, em meio a tiradas de arrogância e cinismo. Dizendo-se ao mesmo tempo pressionado pelos generais e convicto de que a paz só pode ser garantida pela força, Rumsfeld é um condensado do pensamento bélico americano, capaz de cometer horrores em nome da segurança dos soldados e dos cidadãos de seu país. No que parece ser um papo amigável entre Morris e ele, o filme tem a esperteza de fazer com que o personagem desnude a si mesmo. Talvez não haja grandes revelações capazes de reescrever a História, pois esta já foi reescrita com o simples fim do ciclo Bush. Ainda assim, Rumsfeld tira um sarro de Obama ao afirmar que o atual governo, em muitos sentidos, está dando razão ao anterior.

A entrevista é pontuada por materiais de arquivo, vinhetas dramatizadas e inserções de textos na tela, alguns deles glosando o gosto do personagem por definições e paradoxos (o título do filme se refere a um desses jogos de palavras). A trilha hipnótica e constante de Danny Elfman sublinha um sentimento que subjaz a toda a argumentação de Rumsfeld: a psicose paranóica, mãe de todas as guerras.

O Desconhecido Conhecido é dedicado à memória do crítico Roger Ebert (1942-2013), grande amigo de Errol Morris.

2 comentários sobre “O sorriso do gavião

  1. Discordo num ponto: a trilha hipnótica e constante de Danny Elfman beira o insuportável pois acompanha quase todo o depoimento, chegando a “brigar”com ele. Ela poderia ser mais pontual. Seria melhor, pois chega um momento que nem a escutamos mais. Mas isso é uma característica dos últimos filmes de Morris. Mesmo as trilhas do genial Philip Glass, a música consegue incomodar, de tão excessiva.

    • Entendo sua posição, Thereza, que é a minha em relação à média dos documentários. Mas nesse caso acho que funciona bem por agregar uma certa gravidade às falas maquiavélicas do Rumsfeld.

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