A bela árvore de Olmi

Na sua formidável sucessão de mostras de cinema, a Caixa Cultural abriu hoje (terça) no Rio “O Cinema de Ermanno Olmi”. A mostra traz 12 filmes desse realizador herdeiro do neorrealismo italiano e cuja obra é principalmente uma ode ao trabalhador.

Filho de operários da Lombardia, de formação católica, imigrante ainda jovem em Milão, Olmi levou para o cinema todos os traços de suas origens. Quando fez seu primeiro longa de ficção, em 1959, já havia dirigido cerca de 20 documentários sobre o mundo do trabalho. A maioria de seus filmes ficcionais não está alheia a esse olhar documental, seja no uso de gente comum nos principais papéis, seja na forma como deixa suas tramas se contagiarem dos ambientes naturais em que se passam.

Depois do segundo longa, Il Posto (1961), premiado no Festival de Veneza, seus filmes só voltaram a ser lançados no Brasil a partir do décimo, o extraordinário A Árvore dos Tamancos, vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 1978. Desde então, estrearam aqui Caminha, Caminha, Longa Vida à Senhora e A Lenda do Santo Beberrão. A mostra da Caixa oferece a chance de conhecer nove títulos inéditos entre nós.

Há muito o que apreciar e analisar na obra de Olmi. A estrutura de classes da Itália, os mitos históricos do país, as relações entre o homem e o trabalho, os anseios românticos de jovens e velhos são os temas mais comuns. Vale a pena acompanhar as oscilações de seu estilo entre a simplicidade quase franciscana dos traços neorrealistas e a sofisticação das narrativas modernas dos anos 1960, berços de sua personalidade autoral. Quero aqui me deter nos três primeiros longas de sua carreira, que possuem uma notável unidade e anunciam todo o seu cinema futuro.

“O Tempo Parou”

O Tempo Parou (Il Tempo si è Fermato), de 1959, Il Posto (tradução correta: O Emprego) e Os Noivos (1963) tratam de jovens tentando se aclimatar a situações desconhecidas por força do trabalho. No primeiro, temos um estudante de economia que se emprega como guardião na construção de uma represa em região de geleira. Estamos no inverno, quando os trabalhos são interrompidos e todos partem em férias. Roberto terá, então, que conviver somente com um velho e rude operário numa casa modesta, em meio a nevascas e ameaças de avalanche. O filme é uma comédia de comportamento, na medida em que confronta os hábitos e a aparência de playboy de Roberto com os costumes simplórios de Natale, ambos interpretados com destreza por atores não profissionais. A relação, inicialmente desconfiada como um jogo de tabuleiro, progride gradualmente para uma simpatia recíproca que sugere não somente o vínculo pai-filho, mas também o que une o estudante e o professor do romance Coração, de Natsume Soseki, livro que está sendo lido por Natale.

O projeto original de O Tempo Parou era de um documentário, daí o apego de Olmi às minúcias do dia-a-dia e à grandiosidade das locações. A cena crucial de aproximação entre Roberto e Natale se passa no interior de uma igreja, numa noite de nevasca. Olmi cria assim um nexo fundamental para o resto de sua carreira, qual seja o da religião com a solidariedade, algo que o associa inevitavelmente a Robert Bresson, para além das semelhanças no estilo simples e espiritualizado. Não se trata de uma religiosidade beata ou piegas, mas de um humanismo profundo, que não descarta o humor e certa ironia. Aqui nasce, por exemplo, o gosto do diretor por contrastar músicas alegres e ambientes melancólicos. Um rock de Adriano Celentano, trazido pelo jovem estudante, ecoa na imensidão da geleira e destoa da desolação do local.

Il Posto e Os Noivos apresentam linhas de continuidade especialmente marcantes. A começar pelos lugares envolvidos. Domenico, o protagonista de Il Posto, sai da pequena cidade lombarda de Meda para disputar uma vaga numa grande empresa de Milão. Por sua vez, em Os Noivos, Giovanni troca Milão por uma vaga na Sicília, em busca de promoção a “trabalhador especializado”. Domenico encontra uma promessa de amor na belíssima ragazza Antonietta, outra candidata a emprego (o papel foi vivido por Loredana Detto, futura mulher de Olmi e que nunca mais voltaria a atuar). Giovanni, ao contrário, colocará seu noivado com Liliana em perigo ao se transferir sozinho para a Sicília.

Olmi dirige Loredana e Sandro Panseri em "Il Posto"

Olmi dirige Loredana e Sandro Panseri em “Il Posto”

Em Il Posto temos as descobertas simultâneas do amor e do destino cinzento dos trabalhadores modernos. No início dos anos 1960, a Itália deixava para trás os escombros da II Guerra e vivia seu milagre econômico. Instalavam-se as primeiras grandes corporações, com sua arquitetura intimidadora, suas relações humanas impessoais, sua bajulação de chefias e seus testes psicotécnicos ridículos (quem os ministra no filme é o crítico Tulio Kezich, colaborador de Olmi em alguns roteiros). Num dado momento, o filme chega a abandonar seu personagem central para descrever a melancólica vida pessoal dos velhos escriturários, numa espécie de antecipação do possível destino de Domenico. Uma das perguntas do teste era justamente se o futuro lhe parecia desesperador.

A questão das classes sociais corre paralela ao esboço de romance entre Domenico e Antonietta. Ao aceitar um cargo de mensageiro, enquanto ela se integra ao estamento das datilógrafas, ele vê diminuir suas chances de sucesso junto à garota.

O deslocamento do jovem da província para a metrópole sublinha o movimento de Olmi do neorrealismo para a modernidade dos 60. O namorico na rua tem tonalidades de Nouvelle Vague que preparam o cinema do diretor para a inventividade formal de Os Noivos. Se Il Posto dedica seu terceiro ato a uma festa de congraçamento sem graça entre os funcionários da empresa, Os Noivos começa justamente pela preparação de um baile no qual Giovanni e Liliana vivem os difíceis momentos que antecedem sua separação. Um filme parece emendar no outro em muitos sentidos.

“Os Noivos”

Ao trocar Milão por Catânia, na Sicília, Giovanni faz percurso inverso ao de Domenico. Deixa a cidade grande pela pequena cidade industrial, de paisagem ainda semiadormecida. Os habitantes da província, aqui, são alvos de alusões preconceituosas dos “ingegneri” (engenheiros) vindos de Milão. Em comum entre os dois personagens há o olhar e os ouvidos curiosos e ingênuos que conduzem a observação da câmera por ruas, escritórios, fábricas e quartos de pensão. Giovanni, porém, é mais maduro e já viveu as experiências do ciúme e da traição. A distância da noiva instala entre os dois uma dolorida incerteza. Olmi ora sobrepõe os tempos da narrativa em momentos repletos de onirismo, como o carnaval de Catânia que contamina as memórias do baile de Milão, ora estende a duração das cenas e enquadra seus personagens em espaços vazios à maneira de Antonioni em A Aventura, A Noite e O Eclipse. A encenação da troca de cartas entre Giovanni e Liliana é uma das sequências mais pungentes e formalmente admiráveis do cinema italiano da época.

Os Noivos é uma excepcional experiência imersiva no labirinto afetivo de um casal e na vivência de uma cidade siciliana.

A mostra da Caixa traz ainda um filme que se filia a essa tradição inicial da obra de Ermanno Olmi. É o média-metragem La Cotta, que narra a iniciação amorosa de Andrea, 16 anos, de origem operária.

2 comentários sobre “A bela árvore de Olmi

  1. Caro amigo Carlinhos

    Como é bom tudo o que você nos oferece, Carlinhos.

    Obrigada,

    Um beijo grande

    Beth

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