Heli, os Homens e a Gata

Há um quê de sensacionalismo em HELI, o novo petardo mexicano assinado por Amat Escalante. Digo isso não pela violência de um filme que começa com um pé pisando numa cara ensanguentada e enfileira cenas de achaques e torturas, algumas com a participação de crianças. A impressão de “latin exploitation” vem mais da ausência de uma trama dramática forte que contextualize tamanha brutalidade. Temos uma menina inocentemente envolvida com um furto de drogas e as consequências trágicas sobre ela e sua família, incluindo o irmão mais velho, Heli. O pano de fundo é um México aviltado pela indiferenciação entre policiais e traficantes, pela violência implicada em todos os estamentos sociais e pela banalização da morte, que faz cabeças cortadas serem exibidas no noticiário da TV. Ou seja, temos um cenário macabro e um case típico protagonizado pela família do bom moço Heli. Como se isso fosse o bastante, o filme segue uma estrada linear e puramente demonstrativa. Escalante é bom diretor e sabe escolher quando é necessário um distanciamento inquietante e quando convém a exposição crua e direta. O que faltou, a meu ver, foi ir além da mera ilustração e cuidar melhor de certas partes do roteiro. A cena com a leitora de mãos e a tentativa de sedução da policial são pontas inteiramente gratuitas. As catárticas sequências finais são inverossímeis porque desconexas em relação à personalidade de Heli. No mínimo, não souberam desenhar a mudança que o levasse a tal comportamento.

O QUE OS HOMENS FALAM, ótimo título brasileiro para o espanhol “Una Pistola en Cada Mano”, é um filme sobre mulheres. Sobre mulheres que às vezes estão em quadro, mas na maior parte do tempo moram fora da tela. Elas estão sempre no campo de consciência dos homens que conversam entre si diante da câmera. Dentro ou fora da imagem, elas são sempre superiores: decidem, separam-se, dão lições, manejam os parceiros a seu bel prazer. Essa é uma forma oblíqua de reforçar o machismo da sociedade hispano-latina mediante um elogio maroto do poder feminino contra a simpática fragilidade masculina. As pornochanchadas brasileiras já faziam isso nos anos 1970, com suas gatas tripudiando de garanhões bobocas. Por sinal, o quarto episódio do filme lembra bastante um argumento de pornochanchada. Quando os bons diálogos saem da boca de bons atores, como nas três primeiras histórias, o resultado é divertido e interessante. Quando as ideias patinam, como nos dois últimos e no epílogo, ficamos cara a cara com a mediocridade dessa dança de gêneros à moda antiga.

Imagino que num teatro o duelo entre Regina Duarte e Bárbara Paz em GATA VELHA AINDA MIA teria muito mais sentido. O filme de Rafael Primot (com esse título pavoroso) é teatro filmado sem ter sido antes uma peça. As duas atrizes, nos papéis de uma escritora decadente, inspirada na Norma Desmond de “Crepúsculo dos Deuses”, e uma jornalista interessada em entrevistá-la, se entregam a um jogo intrigante que evolui da aproximação profissional para a confissão pessoal, o flerte erótico, o ajuste de contas familiar, culminando com ingredientes de filme de terror. Há que se reconhecer o bom trabalho de ambas e a química ambígua que se estabelece entre elas – mesmo sendo duro engolir Regina Duarte no papel de uma ex-feminista falando em seus “antigos amigos socialistas”. Mas deixa pra lá, fiquemos com as personagens. Elas ganham corpo em diálogos ágeis, alguns bem divertidos, outros tendendo a um diagnóstico dos tempos atuais em comparação com duas gerações atrás. As surpresas do encontro e os deslizamentos entre a realidade e a imaginação literária da escritora compensam o engessamento da encenação e sustentaram meu interesse. Mas no teatro provavelmente seria (vai ser?) melhor.

4 comentários sobre “Heli, os Homens e a Gata

  1. Achei Heli muito exagerado, com uma cena de tortura gratuita e muita sequência sem propósito. Além das citadas por você, Carlinhos, incluo as da queima de drogas e a do noticiário apresentando três cabeças decapitadas sobre o capô de um carro. Nunca vi isso em noticiário e hoje nem mesmo os diários “espreme que sai sangue” (ainda existem?) expõem tais imagens nas bancas. Nunca parei para pensar numa “latin explotation”. Considero muito boa a chegada desses filmes e a circulação internacional. Mas realmente devemos estar atentos para facilidades e clichês. Aquela coisa do pênis flambado me incomodou paca. Denunciar a banalidade de uma realidade violenta não é simplesmente expô-la pornograficamente. Me deixou a impressão de grosseria e oportunismo.

  2. Carlos Alberto, Não vi, mas gostei de suas reflexões sobre o filme mexicano HELI. Temo que nessa reentrada de alguns filmes mexicanos em nossas telas parte da nossa crítica indígena está caindo numa indulgência complacente. Hasta… Sergio Muniz

    • Eu também estou tendo essa impressão, Sergio. Há uma demanda reprimida por filmes latino-americanos de qualidade, daí a pressa em receber bem alguns que não merecem tanto. De qualquer forma, esse filme ganhou prêmio de direção em Cannes e se enquadra nessa onda da latin-exploitation. Hasta…

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