Sete filmes

PRAIA DO FUTURO conta um fiapo de história com fiapos de personagens, mas o faz tão bem que a gente se sente preenchido. Muito disso é por conta dos subtextos que correm em paralelo. No começo, em Fortaleza, temos dois homens abalados pelo desaparecimento de um terceiro. Um corpo some no mar, mas logo cada um dos afetados encontra no outro um corpo para ocupar o lugar. O corte brusco entre a comunicação da morte e a trepada expressa bem essa substituição. Em Berlim, depois de outro corte seco, os corpos assumem outras aparências e movimentos enquanto o tempo passa e a relação entre Donato e Konrad se solidifica. Mas eis que outro corpo reaparece, igualmente transformado. Ayrton, o irmão de Donato, não é mais o menino de antes, mas alguém que chega como um fantasma do passado para cobrar sua fatura. Os corpos, sempre eles, se abraçam para salvar a vida, se entrelaçam em exercícios físicos, se engalfinham num misto de amor e luta, se arrojam na velocidade das motos ou no ímpeto dos mergulhos. Aquaman e Speedracer, os super-heróis cultuados pelos dois irmãos, vão ressurgir nas roupas dos motoqueiros ou nos trajes de mergulho. São como máscaras para aqueles corpos quase sempre em estado de latência. Karim Aïnouz e seu corroteirista Felipe Bragança construíram uma narrativa feita de latências e pequenas explosões. Mais pausas que ações, mais elipses que continuidades, mais sugestões que informações. Um filme visual e musicalmente magnetizante, dominado pelo sensorial e pelo desejo de não ser óbvio. Se às vezes chega perto da incomunicabilidade por obra dos sotaques e das lacunas, parece almejar justamente isso: falar do amor carnal e fraternal como quem está a ponto de perder o fôlego. Um filme a ponto de se afogar lindamente.

Xamânico – esse foi o adjetivo que me ocorreu mais fortemente enquanto assistia a OLHO NU, o doc de Joel Pizzini com Ney Matogrosso. Em sua montagem modular e imbricada, o filme incorpora e potencializa traços da personalidade de Ney, como seu desejo de simbiose com animais e plantas, o uso do corpo na invocação de estados múltiplos da mente, a apropriação da música como instrumento de metamorfose. Ney se autorretrata em falas entrecortadas, que se unem a trechos de 85 músicas para compor uma suíte audiovisual requintadíssima. Ele é sempre inteligente e intenso no que diz, tanto quanto é sedutor na forma como diz. Joel e sua bela equipe sugaram o máximo daquele sumo. Mesclaram memória e performance, canto e fala, presente e passado a ponto de criar uma espécie de presente estendido onde cabem todos os tempos. Num dado momento, Ney diz que a máscara o fez descobrir-se na falta de identidade. É uma frase bonita e crucial para se entender um artista que se expõe na mesma medida em que se esconde. OLHO NU, apesar algumas pequenas delongas (notadas apenas em função da montagem em geral inspirada e precisa), é a fusão ideal de dois artistas e duas linguagens.

EU, MAMÃE E OS MENINOS insere-se na nova onda de comédias populares francesas, que ocorre em paralelo a fenômeno semelhante no cinema brasileiro. Nesse caso, vem à lembrança o recente megassucesso “Minha Mãe é uma Peça”, que se assemelha na origem teatral e no projeto inteiramente conduzido por seu protagonista-diretor. Salta aos olhos, então, a diferença de qualidade entre os dois filmes, não só pela superioridade do roteiro francês, mas também pelo talento na encenação, o porte da produção e o background cultural envolvido. Ainda assim, ficamos no terreno das caricaturas e das situações-clichê. O rapaz criado como menina, frágil e delicado, é submetido a coisas como exame de serviço militar, aulas de dança sevilhana e de cavalaria, exercícios em spa e encontros em boate gay. Ou seja, nada que já não tenha sido explorado à exaustão em comédias sobre estereótipos de gênero. Aqui ocorre uma virada até certo ponto surpreendente, mas que não anula os lugares-comuns até então empregados. O filme, detentor de cinco prêmios César, é sobretudo um triunfo pessoal de Guillaume Gallienne, autor da peça original e da adaptação, diretor e ator principal em dois papéis autobiográficos, o de Guillaume e de sua mãe. É notável sua semelhança com o jovem Dustin Hoffman, e não há como não lembrar de “Tootsie”. Como ator, integrante da Comédie Française, ele é um prodígio nos maneirismos bem dosados e na noção de tempo do humor. Encarnando a mãe, é ainda mais fenomenal. Como diretor, expande essas virtudes para o resto do filme. O resultado é um tanto irregular, com alguma ideias surradas e outras brilhantemente executadas (o exame no Exército é uma destas). A simpatia do personagem é que acaba botando a plateia no bolso, e voilá!

Apesar do fundo melodramático e do argumento previsível, sem grandes novidades, ENTRE VALES causa certa impressão por diversas razões. Primeiro, o formato da narrativa, algo que sempre interessou a Philippe Barcinski tanto quanto os fatos narrados. O drama do empresário que vira catador de lixão após um trauma familiar é contado num relato em “X”, ou seja, em dois tempos que progridem em direções contrárias até se tocarem num determinado ponto. Há também o impacto das imagens de Walter Carvalho, sobretudo nas cenas do lixão e da coleta pelas ruas noturnas do Centro de São Paulo (eu não sabia que existia roubo de lixo). Outro destaque é o trabalho do elenco principal, sobretudo o menino Matheus Restiffe e Ângelo Antonio, um ator de rara precisão tanto no coloquial quanto no visceral. A trilha musical de Rica Amabis também contribui para manter o espectador permanentemente conectado. O que de mais questionável tem o filme é sua metáfora básica sobre o lixo como derradeiro estágio da condição humana, a reciclagem como signo de superação e a limpeza física como índice de redenção. Além de ingênua, essa operação simbólica corre o risco de parecer politicamente incorreta quando mostra os catadores como seres quase indistintos das montanhas de resíduos. É o contrário do que fez Eduardo Coutinho em “Boca de Lixo” ao resgatar a humanidade deles.

Bérénice Bejo ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes por O PASSADO. Ela está realmente ótima, mas não menos do que todo o elenco do filme. Asghar Farhadi dirige com precisão milimétrica mais uma história montada em torno de uma mentira (ou omissão) central que desencadeia o inferno ao redor. Dessa vez, na França, envolvendo imigrantes. Mas não encontrei aqui a mesma força de PROCURANDO ELLY nem muito menos de A SEPARAÇÃO. Prevalece um tom meio novelesco, que nos outros filmes era dissimulado pela pegada policial, a resolução de um mistério. Aqui há também uma questão mal explicada que dificulta a vida de uma mulher na relação com seu marido anterior, o amante atual e os filhos de diversas uniões. Os filhos personificam o passado do título, que parece não querer desgrudar dos personagens, provocando desarmonia e sofrimento. Um belo e sóbrio filme, sem dúvida, mas sem o brilho dos anteriores.

Se você quer saber como era a poeta portuguesa Florbela Espanca e por que ela morreu prematuramente aos 36 anos, esse filme que está em cartaz não é a melhor escolha. Mas se quiser ver uma mulher opaca, obscurecida por “mistérios insondáveis” e afogada num mar de novelão televisivo, FLORBELA (já fora de cartaz no Rio) é o programa ideal. No filme, a escritora avançada para o seu tempo e atormentada por desajustes amorosos e por impulsos suicidas aparece como se fosse uma sombra de si mesma. Nenhuma janela se abre para suas motivações ou desmotivações, além de um apego potencialmente incestuoso pelo irmão – o que rende cenas intermináveis de olhares concupiscentes e amor reprimido. A obra literária de Florbela (poesia, contos, diários) não ressoa minimamente nessa narrativa de seus últimos anos (ou meses?), quando não mais escrevia. Dessa forma, temos uma personagem que poderia ser perfeitamente uma arquiteta ou uma manicure sem fazer a menor diferença. Seus últimos tempos com o terceiro marido e o irmão são narrados com um convencionalismo atroz, pontuado por frases lapidares em dicção empolada e música excessiva. Cada sequência deixa a impressão de ter pelo menos três minutos a mais do que deveria. Na cenografia de telessérie, até o lixo da rua aparece bem arrumadinho. O excesso de zelo com a imagem da escritora chega a alterar sua causa mortis. Um letreiro final informa que Florbela “morreu de tristeza” em 1930, quando bem se sabe que a morte foi por overdose de barbitúricos na terceira tentativa de suicídio. FLORBELA é a pomposa e vazia falsificação de um destino trágico.

Com elenco e idioma franceses, Gianni Amelio adaptou LE PREMIER HOMME, o romance inacabado de Albert Camus, em filme de 2011 não lançado no Brasil. Outro italiano, Visconti, havia transposto “O Estrangeiro” em 1967. É curioso que nenhum cineasta francês tenha realizado uma adaptação notável do escritor. Amelio escolheu um romance meio autobiográfico, em que Camus aparece sob a pele do escritor Jacques Cormery. Consagrado na França, Jacques retorna à Argélia em 1957, em meio aos atentados da guerra de libertação. Ele vai ter uma série de reencontros com personagens da sua infância: a mãe profundamente ligada à terra, o professor que o salvou do destino de menino francês pobre (pied-noir) na colônia, o tio que foi seu primeiro cúmplice na vida e o ex-colega árabe que mantinha com ele uma rivalidade étnica. Esses reencontros vão formar a cartografia de um personagem dividido, que no fundo representa a divisão da “família” franco-argelina durante os 15 anos de guerra. O filme tem a mescla de intimismo, nostalgia e reflexão política que caracteriza os filmes de Amelio, mas peca por uma estrutura um tanto esquemática entre passado (1924) e presente (1957). O caráter taciturno do personagem principal parece contaminar o filme inteiro, que avança a passos lentos e erráticos. Uma caracterização idealizada de Jacques no passado, agravada pelo miscast do garoto em relação à versão adulta, torna as coisas ainda mais difíceis de absorver. Tenho a impressão de que, assim como García Marquez, Camus permanece um desafio complicado para a passagem à tela.

6 comentários sobre “Sete filmes

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

  2. Realmente, acho que meu comentário merece autocritica pela excessiva generalização. Justiça seja feita, fiquei com essa impressão apenas um par de vezes…..hoje em “praia do futuro” e outro dia (não me lembro o filme agora); ….. é essa tendencia da gente de fixar o negativo….!! !!!

  3. nao gosto mais tanto dos comentários do critico, desde que ele passou a incorrer no erro de contar o filme ao leitor. Desde então tenho evitado ler seus comentários antes de ver o filme (coisa que fazia antes com prazer)

    • Puxa, Monica, será que estou mesmo “contando” os filmes ou apenas tentando comentar os seus sentidos? Mas valeu o toque. Vou prestar mais atenção nisso.

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