Céu e inferno de um arquiteto

Em se tratando de um documentário “de família”, BERNARDES é bastante honesto. Em se tratando de um filme sobre arquitetura, é muito bem construído. Não há subterfúgios: trata-se de um perfil pessoal e profissional de Sérgio Bernardes (1919-2002), narrado com a ajuda de parentes, amigos, colegas, pesquisadores e algumas poucas falas e imagens do próprio. Na primeira metade, conta-se a sua ascensão nos anos 1950 e 60, quando era o arquiteto preferido das elites e esbanjava sua verve sedutora do escritório aos quartos. Foi o tempo da boa vida e das belas e arrojadas casas burguesas, do Hotel Tambaú em João Pessoa, do Pavilhão de São Cristóvão, etc. Na segunda metade, o filme muda de tom. A partir de uma dura separação conjugal e uma guinada na carreira, SB passa a viver um misto de glória e inferno.

É quando se explica o interesse do neto Thiago Bernardes, também arquiteto, em fazer o papel de personagem condutor. Thiago quer entender por que o avô não é mais discutido nas universidades, por que não se fala mais dele. Sem medo de mexer em caixas de sombras, ele questiona seus entrevistados. Descobre – e nos revela – o apagamento de SB por uma série de razões. Primeiro, por ter aceitado encomendas do regime militar, aderindo ao desenvolvimentismo conservador e deixando-se estigmatizar como arquiteto oficial. Depois, pelo caráter visionário (lunático ou utópico, para alguns) de muitos de seus projetos. Tantos foram os que nunca saíram das pranchetas quanto os que saíram mas hoje se encontram destruídos ou dilapidados. O relativo ostracismo, conjugado com uma tentativa frustrada de fazer carreira política, dá margem a uma história amarga, vivida por um homem que se julgou maior que a vida. Cheio de si, talvez ofuscado pelo seu próprio brilho, Sergio Bernardes julgou que poderia manter-se acima das paixões e dos limites da realidade. Acumulou frustrações em número comparável ao de elogios.

O documentário sobre ele faz justiça a esse destino grandioso e um tanto trágico. E também se destaca pelo bom-gosto visual, a narrativa bem desenhada, o tom adequado a cada traço que vai se acrescentando ao biografado. Sua estreia nos faz lembrar o incompreensível ineditismo de “Tamboro”, o filme-sinfonia sobre o Brasil deixado pelo filho do arquiteto, o cineasta Sergio Bernardes Filho.

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