Fellini, Nova York, Toronto, Havana

Scola e Fellini trabalharam no mesmo jornal de humor no início de suas carreiras, colaboraram de várias maneiras no cinema e foram amigos por toda a vida. QUE ESTRANHO CHAMAR-SE FEDERICO é a homenagem de Ettore a essa amizade. Não é propriamente um documentário, mas uma encenação de momentos dessa relação, conduzida por um narrador e ocasionalmente ilustrada por materiais de arquivo. Entre esses, o melhor são os testes de Fellini para “Casanova” com Alberto Sordi, Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman experimentando o papel que seria afinal de Donald Sutherland. Mastroianni, nunca cogitado para esse trabalho, viveria Casanova num filme de Scola, “Casanova e a Revolução”. Destaca-se ainda o grande carrossel final com cenas de filmes de Fellini. De resto, Scola dramatiza, sem muito ritmo ou graça, os métodos de Federico para buscar inspiração entre prostitutas e pintores de rua, usando eventualmente um sósia e o áudio de entrevistas de Federico. O famoso estúdio 5 de Cinecittà volta à cena nessa viagem nostálgica e um tanto desenxabida à era de ouro do cinema italiano, originada das charges impressas e do teatro de variedades. O roteiro de Scola e suas filhas Paola e Silvia demora a se desenvolver e tem dificuldades para encontrar um tom coeso entre o depoimento pessoal e a exposição direta de fatos. Para os fãs de ambos os diretores, é uma peça curiosa e gentil. Para quem não participa desse culto, fica como um desenho apenas esboçado.

Algum estranho frisson faz com que todos os personagens de O ENIGMA CHINÊS comprem uma passagem da França para Nova York. Tal facilidade de roteiro já compromete de saída essa comédia romântica em torno de um escritor pobretão que, após a separação da mulher, se muda para NY para não ficar longe dos filhos. O fato de Xavier Rousseau (Romain Duris) estar escrevendo um romance autobiográfico é subaproveitado, com a agravante de cenas pífias em que antigos filósofos visitam o escritor para confirmar que a vida é mesmo complicada. Resta então uma morna sucessão de confusões entre o rapaz e três ex-namoradas, uma das quais vive relação lésbica, além de uma nova esposa chinesa de fachada. A dura vida do imigrante sem dólares fornece alguns momentos divertidos, mas nem isso, nem as bossas de animação e os jump cuts moderninhos é capaz de injetar calor e interesse num filme que, ao contrário dos seus personagens viajantes, nunca decola. O diretor Cédric Klapisch jamais repetiu a qualidade dos seus primeiros sucessos, “O Gato Sumiu” e “Albergue Espanhol”. Sua originalidade se perdeu, e este “O Enigma Chinês” ficou parado num limbo temporal entre velhos estilemas de Leos Carax e as comédias europeias multiculturalistas dos anos 1980.

O HOMEM DUPLICADO é uma adaptação canadense do romance homônimo de José Saramago. Mas Dennis Villeneuve parece não ter se contentado com a parábola do duplo e infestou o filme de referências explícitas e simbólicas. Adam Bell é um professor obcecado pela história das ditaduras e pela maneira como a História se repete. Um dia ele vê no cinema um figurante idêntico a ele mesmo e sai à procura do seu duplo. Este é Anthony St.Claire, ator de segunda que gosta de frequentar shows eróticos. Mais que um sósia, Anthony é outro homem com o seu mesmo corpo, aí incluídos detalhes individuais. A aproximação dos dois personagens vividos por Jake Gyllenhaal enseja uma troca de identidades e de libidos, assim como uma terrível confusão com as respectivas parceiras amorosas. Confusão também para o espectador, que precisará de muita atenção para desvendar a teia de aranha que se forma a partir daí, considerando roupas, acessórios e jeito de ser de cada um. Será preciso, na verdade, algum conhecimento psicanalítico para decifrar os caminhos do inconsciente que ditam os desejos de cada um. Villeneuve tenta unir o Hitchcock de “Um Corpo que Cai” com o Freud de “O Estranho” e o Kafka de “A Metamorfose”. Acaba criando um conto mais intrincado que revelador, cujo título original, “Enemy”, enfatiza a oposição em lugar da simples duplicidade. Há um excesso de simbologia e uma procura de suspense que inflam a história desnecessariamente. As massas de concreto da cidade de Toronto fornecem um cenário sugestivo para um filme que termina num quarto, de repente, com uma imagem ao mesmo tempo ridícula e assustadora.

Produção americana apadrinhada por Spike Lee, UMA NOITE é ambientada em Havana e mergulha sua história ficcional num olhar supostamente documental sobre a atualidade da capital cubana. Vemos, então, construções dilapidadas, prostitutas e hip hop pelas calçadas, mercado negro correndo a rodo, bullying no Malecón, gays e travestis saindo à luz do dia. Nada que merecesse o aval oficial de Raúl Castro, mas tampouco a diretora Lucy Molloy enfrentou qualquer oposição do governo para fazer seu trabalho. Três jovens decidem fugir em um bote para Miami. Argumento velho, portanto, mas temperado pelo triângulo afetivo entre os irmãos gêmeos Lila e Elio com o amigo Raúl. Isso significa adrenalina a mais na preparação da fuga enquanto a polícia caça Raúl pela agressão a um turista. A crítica americana louvou a energia da direção, mas a mim pareceu bastante inconsistente. O foco da narrativa transita entre vários subplots e não consegue adensar nenhum, a não ser nos 20 minutos finais passados a bordo da frágil embarcação. Roteiro e montagem são abruptos, a narração em off da menina não acrescenta nenhum ponto de vista particular. Melhor que o filme é a história real que se seguiu: a caminho do Festival de Tribeca, Anailín de la Rúa de la Torre e Javier Núñez Florián, os atores que fazem os irmãos gêmeos, escaparam do avião na escala em Miami e conseguiram um green card nos EUA. Meses depois, estavam juntos e esperando… gêmeos!

VERSOS DE UM CRIME confirma uma impressão minha: a geração beat não rende bem no cinema. “Almoço Nu” do Cronenberg foi ousado. “Na Estrada” do Walter Salles foi ok. Mas esse agora é uma chatice só. Os caras estão apenas começando, em 1943. Enquanto a II Guerra abala a Europa, em Nova York os meninos ensaiam seu rompimento com o status quo literário e Allen Ginsberg se envolve com o inflamado Lucien Carr sob os auspícios de Kerouac e Burroughs. Mais que a poesia ou a prosa, o que está em jogo é uma confusa ideia de liberdade. Mas isso vai se chocar com uma história de homossexualidade mal resolvida que conduz ao crime do título. O filme de John Krokidas reúne episódios biográficos pouco conhecidos numa rede de palavras e ações que não desperta maior interesse. O problema é o de sempre quando o cinema americano careta tenta dar conta de movimentos de rebeldia: a forma se choca com o conteúdo. As atitudes e travessuras dos futuros beats são representadas em cenas fechadinhas e banais, com algumas tentativas frustradas de sugerir processos mentais por meio de uma montagem rápida e descontínua. Ou seja, pura fórmula. Os atores não vão além do dever de casa. Quanto às imagens (fotografia, cenografia, etc), nada posso falar, uma vez que não vi. O arquivo digital em exibição no Estação Botafogo parece um DVD configurado em tela pequena e reproduzido numa TV sem brilho ou contraste. Assim, os primeiros dias dos beats ficam parecendo uma longa noite de escuridão.

Um comentário sobre “Fellini, Nova York, Toronto, Havana

  1. Carlos,

    Conversei com o gerente do Estação Botafogo, ontem, 25/6, e tive uma ótima notícia .Como dizem:,” uma alma saiu do purgatório”, De uns três dias para cá, a Sala 1 ,está sendo operada por projetor novinho em folha, com excelente projeção em digital. Acredito que se for filme em “velho celulóide”, também. Não assisti nada ali depois, mas o gerente me passou bastante firmeza e integridade.

    A política de exibição durante a Copa é a que se segue:

    Em dias de jogo do Brasil ,os Cinemas Botafogo 1,2,3 fecham duas horas antes e reabrem ‘duas horas depois. Mas se neste caso só for possível uma única sessão, eles não abrem. No mínimo duas para justificar reabertura, em outras palavras. Não sendo o Brasil em jogo, o Cinema não para.

    Esqueci de perguntar sobre o Estação Rio, mas como é da mesma rede, administrada pelo Marcelo Mandes, creio que valha a mesma política.

    Para o Espaço Itaú de Cinema, ao menos que tenham mudado, além de questões relativas aos dia dos jogos do Brasil ( logística ´que não conheço), toda vez que houver jogo no Maracanã, tem reuniões relativas, com portas fechadas, à Copa por lá, pessoas são levadas para o Maracanã depois e o complexo de salas fica fechado o dia todo.

    Abs,
    Nelson

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