Carta aberta ao cinema brasileiro

LucianaPublico abaixo, simultaneamente com outros veículos, a carta aberta da documentarista Luciana Burlamaqui a respeito do seu filme sobre o roubo ao Banco Central de Fortaleza, interrompido por ações dos produtores. Eu considero a ausência de qualquer explicação sobre a inconclusão desse trabalho como uma dívida dos produtores não somente para com a diretora, mas também perante a crítica e o público brasileiros.

CARTA ABERTA AO CINEMA BRASILEIRO

Em agosto de 2015, o roubo ao Banco Central de Fortaleza completará 10 anos. Há quase 8 anos fui impedida pelas produtoras Grifa e Mixer de finalizar o documentário que gravei e dirigi ao longo de quase dois anos sobre a investigação pela Polícia Federal deste furto milionário. Há 7 anos luto na Justiça para que eu seja reconhecida como a diretora do filme e tenha o direito ao corte final como autora do documentário. Ao longo deste tempo, me empenhei em inúmeras tentativas de negociação com as produtoras Grifa e Mixer e seus respectivos sócios: Maurício Dias e João Daniel Tikhomiroff – todas sem êxito.

Gravei mais de 170 horas de material e pude testemunhar que a maior arma da Polícia Federal nesta investigação foi a inteligência. É possível combater o crime no Brasil sem matar.

Este filme precisa chegar ao conhecimento da sociedade brasileira. Luto pelo direito de contar uma história de interesse público cuja autoria é minha.

1a Carta aberta

Em dezembro de 2012, publiquei carta aberta (leia aqui no blog) dirigida ao produtor e cineasta João Daniel Tikhomiroff onde fiz um apelo público para uma negociação, mas não houve retorno. A discussão que trago aqui coloca em relevo o ponto de vista ético, o direito autoral do diretor sobre o filme e o corte final.

O Corte Final

No processo judicial que corre contra a produtora Grifa, dado que as notas fiscais como diretora do filme foram emitidas contra ela, a produtora reivindica o corte final para a Polícia Federal: “A própria Polícia Federal se reservou o direito de realizar o corte final, justamente porque não permitirá a utilização de imagem que denigra a instituição ou qualquer de seus agentes. Assim, não há que se falar que a agravante estava tentando retirar da agravada (Luciana) o direito de realização do corte final, já que este não pertencerá sequer à agravante (Grifa), e sim à própria Polícia Federal”. (trecho no processo dos advogados da Grifa/Mixer)

No momento em que eles afirmam na Justiça que o corte final não é do diretor e sim da Polícia Federal, dão a entender que pretendem editar um documentário institucional e não um filme imparcial. Porém eles não me contrataram para isso. Nem mesmo a PF fez esta reivindicação. O corte final, evidentemente, pertence ao diretor e não aos personagens do filme. A mesma ética que terei com a Polícia Federal terei com todos os abordados no documentário, o que inclui: acusados, presos, familiares, advogados, testemunhas etc. Acompanhei a história de pessoas reais, não ficcionais. As decisões tomadas na edição irão refletir diretamente na mensagem do filme e na vida dos retratados desta história. É essencial que o corte final seja do autor que assina a obra: o diretor.

Riscos de vida

O filme não se restringe a um “acompanhamento técnico de registros”. Ele foi construído a partir de inúmeras gravações que realizei sobre os bastidores da investigação com informações que não necessariamente estão materializadas no processo e foram gravadas com um olhar pessoal, autoral, já pensando na sua edição final. Minha vida e a de inúmeras pessoas que aparecem nas gravações poderão ser expostas de maneira irresponsável dependendo de como esta história for contada. Por ter vivido intensamente quase dois anos de investigação, tenho absoluta consciência do que deve ser uma edição ética, autônoma e independente e já me propus a assumir toda a responsabilidade sobre a edição, produção e finalização deste filme, com todas suas consequências.

Dirijo e gravo sozinha

No processo, a produtora Grifa, através de seus advogados, tentou fazer o juiz crer que eu era cinegrafista ou diretora de filmagens. “A agravada (Luciana Burlamaqui) atuou como mera cinegrafista, eis que até o momento não houve edição das imagens, já que neste tipo de projeto não há direção nas cenas que serão gravadas, eis que tratam de fatos da vida real”.

Além de gravar, fazer o áudio e dirigir, escrevi o formato do projeto, as sinopses, argumentos, pré-roteiros etc. Isso é trabalho de autor. A forma como o filme foi gravado, a condução das entrevistas também compõe o formato da obra. Já gravo construindo o roteiro, pensando na edição. Não capto imagens, não sou cinegrafista. Meu documentário anterior: Entre a Luz e a Sombra, lançado em 2009 no cinema, tvs e festivais, e disponível no Youtube, também foi feito com essas características, pois este foi o formato em que me especializei. Aliás, fui convidada para dirigir este documentário justamente por ser uma diretora que trabalha sozinha em campo fazendo imagem e áudio, além de ter me especializado na temática da violência.

Diretor que filma, “capta” imagens? Documentário não tem visão artística?

Na Justiça, a Grifa defende através de seus advogados no processo que: ”não há até o momento qualquer atuação da Autora que pudesse caracterizar como visão artística sobre os fatos, já que não há efetiva direção das cenas da vida real, bem como considerando-se que os agentes da Polícia Federal e demais envolvidos não são atores que pudessem ser dirigidos, temos que os serviços executados, tratam-se efetivamente de mera captação de imagens”.

É inacreditável o argumento acima levado ao juiz com o objetivo claro de transformar o “diretor que filma” em um mero captador de imagens como forma de subtrair-lhe o direito ao corte final. Quer dizer que visão artística só existe em filmes de ficção? Todos os milhares de documentários realizados na história não são dirigidos por que não existem atores? E o cinema-direto, uma das matrizes do documentário moderno, onde as cenas são gravadas e não há qualquer interferência do diretor sobre a cena? No entanto, sim, ele é quem está dirigindo, pois direção é a escolha do entrevistado, da duração da cena, do ângulo e movimento da câmera, da pergunta feita, da cor da imagem, de como retratar o tema, do uso ou não de trilha musical etc. A minha marca está claramente em todo o filme, em cada segundo das gravações.

Quem são os outros diretores?

Argumentam, ainda na Justiça, que a obra é coletiva do ponto de vista da direção. Entretanto, gostaria de saber quem são os outros diretores do filme, pois até o momento ninguém o reivindicou publicamente.

Contrato

Em setembro de 2005 assinei um contrato como diretora do filme com validade inicial de 3 meses. Após esse período, percebi que aquela investigação era muito sensível e seria longa. Pedi um novo contrato garantindo meu corte final no filme, como condição para que eu continuasse no projeto. Eles concordaram com o novo contrato, mas sempre postergaram sua formalização. Ao mesmo tempo, estimulavam a continuidade do meu trabalho, dizendo que eu não me preocupasse, que eu teria o corte final já que eu era a diretora do filme. Confiei na produtora e nas pessoas próximas a mim que trabalhavam no projeto.

No início de 2007 (quase um ano e meio trabalhando no projeto), as duas produtoras me disseram que só assinariam o novo contrato comigo depois que eu intermediasse junto ao chefe da investigação do caso (com quem eu gravava) uma autorização por escrito dele, formalizando a realização do filme com as produtoras. Até aquele momento esse documento não existia. Fiz o que me pediram e o termo foi assinado. Meses depois fui “desligada” do projeto sem qualquer justificativa. Para minha surpresa o dono da Grifa, Mauricio Dias, junto com a minha assistente de direção na época continuaram as gravações por alguns meses. Esclareço que o material que gravaram não é necessário para que eu termine o filme, já que a própria Polícia Federal, neste caso, também o registrou. O mais relevante, que é o método investigativo, o submundo da criminalidade e os bastidores da segurança pública, registrei com profundidade sob o meu olhar. Segundo meus advogados, mesmo com o único e inicial contrato assinado, tenho os direitos morais sobre a obra. Continuei emitindo notas fiscais como diretora do filme ao longo de todo o tempo do meu trabalho.

Ética

Gostaria que esta luta colaborasse para um debate profundo no mundo audiovisual sobre: o respeito ao direito autoral e ao corte final do diretor; a ética nas relações entre diretores e produtores e a enorme responsabilidade que temos ao abordar histórias reais e vidas humanas nos documentários. Para isso, conto mais uma vez com ações que tragam o diálogo, o bom senso e o compromisso ético do cineasta e produtor João Daniel Tikhomiroff, do atual presidente da Mixer, Hugo Janeba e dos sócios da Grifa, Maurício e Fernando Dias, com vistas a um acordo que permita a conclusão do meu trabalho. A sociedade brasileira não pode ser impedida de conhecer essa história.

Atenciosamente,
Luciana Burlamaqui

PS: No segundo semestre de 2014 recebi o apoio de cineastas, jornalistas, advogados e ativistas de direitos humanos, para que eu possa finalizar o filme. O abaixo-assinado “Em Defesa de um Direito” foi enviado para o atual presidente da Mixer, Hugo Janeba, com cópia para o produtor e cineasta João Daniel, mas até o momento não houve retorno dos mesmos. Neste link, o manifesto e seus signatários.

7 comentários sobre “Carta aberta ao cinema brasileiro

  1. Luciana, sua causa é a mesma de todos os produtores independentes, curtametragistas, diretores e documentaristas, nós que produzimos a história audiovisual brasileira. Com seu relato, por instantes fiquei em dúvida se estamos mesmo no Brasil ou em Cuba, ou ainda na extinta União Soviética. Vou divulgar esse caso para todos os contatos que tenho a fim de que os envolvidos nesse imbróglio se sintam envergonhados pela falta de respeito e ética com o trabalho alheio.
    Um grande abraço.

    Paulo Roque

  2. Prezado Paulo Magalhães, muito obrigada pelo apoio e acho excelente que possa levar esta questão para ser discutida em sala de aula! A palavra “denigra” está no processo e foi escrita pelos advogados da produtora. Abraços, Luciana

  3. Luciana, tua luta envolve todos nós. Os argumentos dos advogados dos produtores são risíveis quando expostos à comunidade do audiovisual.

  4. Prezada Luciana Burlamaqui

    Com muita lucidez e argumentação propões um debate com a sociedade civil a fim de discutir os direitos autorais do cineasta, do diretor do filme, do criador/elaborador, que é na verdade o maior intelectual do nosso tempo. Desde já me solidarizo com a sua luta e levarei a questão para a sala de aula. Sugiro, entretanto, que suprima do texto o vocábulo “denigra” a fim de evitar interpretações equivocadas. Cordiais saudações.

    PAULO MAGALHÃES

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