Cinco gêneros na praça

O ANO MAIS VIOLENTO faz par com o também ótimo “Margin Call” para fixar o diretor J. C. Chandor, filho de um banqueiro, como um dos grandes ficcionistas do capitalismo americano em atividade. Este seu novo filme, passado na Nova York de 1981, é uma boa aula sobre o funcionamento real do tal sonho americano. Dois imigrantes latinos são mostrados em paralelo para exemplificar como a terra das oportunidades requer vontade de ferro, nervos de aço, barras de corrupção e ilegalidade e, se possível, um casamento que forneça um certo lastro. Sem isso, sem chance.
Numa atuação impecável, o ator guatemalteco Oscar Isaac vive Abel Morales, um empreendedor do ramo de distribuição de petróleo que cresceu demais e se vê invejado pela concorrência, pressionado por um promotor, abandonado pelo banco e com seus caminhões atacados por assaltos em série. Abel não quer ser um gângster nem se envolver com armas, mas agir corretamente e só transgredir a lei nos limites, já bastante elásticos, dos chamados “padrões industriais”. Seus escrúpulos serão postos à prova a cada 15 minutos de filme.
Chandor arma suas cenas com mão de seda, alimentando o suspense de maneira cool e limpa, só ocasionalmente acelerando o ritmo para poucas e boas cenas de ação. Se o papel de Oscar Isaac parece ter tomado como modelo o Al Pacino de “O Poderoso Chefão”, o que temos aqui, ao contrário, é um curioso exemplar de filme de gângsteres em que estes só aparecem como sombras, enquanto seu protagonista renega o gênero.


Se você aprecia comédias dramáticas sobre a vida ordinária na Escandinávia, então não perca HAPPY, HAPPY. Ali tem tudo o que você espera: casais expondo sua roupa suja ao redor da mesa de jantar, impasses sexuais resolvidos ali mesmo no corredor, traições sendo submetidas a terapia, confissões em horas impróprias e arranjos de convivência nas horas próprias. Como cereja do bolo, um menino branco que teima em brincar de escravo com um garoto negro.
Embora os dois casais vizinhos e seus filhos estejam afastados de qualquer meio social mais amplo, o filme de Anne Sewitsky lida com padrões da sociedade norueguesa, onde a aparência de normalidade e perfeição pode ser apenas uma casca fina de gelo a encobrir a pedra dura das disfunções e dos segredos dissimulados. Um misto de gravidade e leveza, também muito típico do cinema escandinavo, nos embala entre o huis-clos tenso dos casais e o alívio irônico das canções de um quarteto que parodia os quatro protagonistas. O filme me lembrou um ditado chileno recentemente divulgado no Facebook por Vinicius Reis: “Amor de lejos, felices los cuatro” (Amor de longe, felizes os quatro).


3029890-slide-3027442-slide-s-watermark-03Enquanto estudo de “como damos forma à água e somos formados por ela”, o documentário canadense MARCAS DA ÁGUA (Watermark) é raso como um pires. Na verdade, o filme é concebido a partir do olhar do fotógrafo Edward Burtynsky (o mesmo de “Manufactured Landscapes”) em seu trabalho de retratar o assunto pelo mundo afora. Assim, visitamos – talvez sobrevoamos seja termo mais adequado – uma barragem gigantesca na China, uma peregrinação de milhões no Ganges, o delta de um rio mexicano transformado em deserto, um campeonato de surf nos EUA, um imenso curtume na Índia, uma comunidade de fazendeiros de mariscos em algum lugar da Ásia, magníficos poços em degraus no Rajastão, arqueólogos do gelo que perfuram o solo da Goenlândia… Enfim, um mosaico de cenários mesmerizantes, filmados com drones, helicópteros e câmeras submarinas.
A intenção desse tipo de filme é atingir as consciências a partir do maravilhamento dos sentidos. De todo esse passeio pescamos algumas contradições sociais e equívocos ambientais, mas sempre como mera citação que nunca ultrapassa a tona da questão. Edward Burtynsky não hesita em afirmar que compreendeu o que é a Natureza. Ok, não vamos discutir com ele, mas é fato que o filme não consegue estabelecer essa compreensão para além das imagens colossais.


Numa época de modernizações e até subversões de contos de fada no cinema, a gente se pergunta por que a Disney quis simplesmente refazer, em live action, a sua clássica animação CINDERELLA. Não há qualquer releitura ou atualização digna de nota numa história que, aliás, ocupava boa parte do recente multiplot-de-fadas “Caminhos da Floresta”. Mas quando chega a hora das transformações mágicas de gata borralheira em princesa, abóbora em carruagem de ouro e animais em condutores, aí a gente compreende o projeto. A Disney quis apenas mostrar que é possível abolir as fronteiras entre a animação digital e a encenação real, tornando tudo uma coisa só.
É um empreendimento de vaidade industrial, não por acaso dirigido por um dos cineastas mais vaidosos do mundo. Kenneth Branagh desdobra-se em bravuras cênicas, auxiliado por uma direção de arte faustosa, figurinos de cores extravagantes e alguns desvios não muito eficazes para o campo da comédia. Ele falha naquilo que costumava fazer melhor, a escalação e direção do elenco, no qual somente Cate Blanchet brilha palidamente no papel da madrasta. O filme é um espetáculo suntuoso e antiquado, ao qual falta o sapatinho da personalidade.


Antes de Paul Thomas Anderson, somente um obscuro diretor alemão ousou levar Thomas Pynchon para as telas (“Prüfstand VII”, de Robert Bramkamp, baseado no romance “O Arco-íris da Gravidade”). Expoente da literatura pós-moderna americana com formação em Física, Pynchon é conhecido por suas histórias labirínticas, em que se cruzam referências à cultura real e imaginária do século XX. VÍCIO INERENTE é tido como um de seus livros mais acessíveis, mas não menos cravejados de alusões a pessoas, empresas, organizações, grupos musicais, etc. Basta notar que os diálogos têm quase tantos nomes próprios quanto substantivos comuns.
PT Anderson valeu-se da trama policial para fazer uma espécie de filme noir chapado por toneladas de marijuana. Joaquin Phoenix está genial no papel do detetive particular riponga que, fisgado por uma ex-namorada, se mete numa complicadíssima trama envolvendo empreendimentos imobiliários, traficantes de heroína, vendedores de reabilitação, membros da polícia de Los Angeles e todo um clima de paranoia direitista do ano de 1970, quando Nixon era presidente, Reagan era governador da Califórnia e o assassinato de Sharon Tate ainda ecoava por toda parte.
Enquanto investe no humor e na exploração de situações quase surreais, o filme dá conta do seu recado. Afinal, tudo aquilo é uma sátira ao universo criminal. As interações entre Doc e o policial Big Foot (Josh Brolin) são especialmente divertidas. Mas quando essa veia se perde, ali pela metade da projeção, não resta mais que uma tortuosa chatice. O estilo particular de PTA não é suficiente para desfazer a impressão de que a coisa está demorando demais a acabar. E quando termina, a gente olha pra trás e só vê fumaça.

Um comentário sobre “Cinco gêneros na praça

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