Tags

Três observações sobre OS OITO ODIADOS:

1. O tema – O racismo e a misoginia estão no texto e no subtexto permanentes do filme. Tarantino se vale do recuo no tempo para liberar uma série de ofensas com que a plateia pode se divertir amparada na atenuante de época. Uma mulher é continuamente xingada e agredida, mas ela é uma bandidaça que merece tal tratamento, e assim todos podem rir à vontade. Um negro é seguidamente vilipendiado, mas o filme o identifica como herói da resistência, e o público se sente autorizado a curtir tudo aquilo na expectativa de uma catarse que poderá vir ou não. Se em certa medida esse filme toca a mesma tecla de “Django Livre”, por outro lado se distancia pela forma mais cínica e ambígua com que trata o tema.

2. O ritmo – O filme é uma variação do western, mas incorpora traços de outros gêneros, como a sitcom e o mistério do tipo Agatha Christie. O componente de teatralidade do cinema de Tarantino está presente aqui mais do que nunca, em grau de condensação talvez só comparável ao de “Cães de Aluguel”. Essa teatralidade se afirma principalmente pelo ritmo das falas, que valem como ação física nos intervalos entre as ejaculações de ação física propriamente dita. Nesse quesito, OS OITO ODIADOS me desapontou no segundo e terceiro atos, quando tudo se resume a uma espécie de sitcom no Armarinho da Minnie. O ritmo se arrasta na matraqueação caipira e o humor nem sempre funciona – o que, em se tratando de Tarantino, é um pecado mortal.

3. O título – Ao escalar oito personagens odiosos (a tradução “odiados” é completamente errônea para “hateful”) num filme alardeado como seu oitavo, Tarantino brinca com o próprio conjunto de sua obra. São oito longas adoráveis e detestáveis, quase sempre ao mesmo tempo. Quem sabe ele esteja planejando dirigir um curta para ser o seu “Oito e Meio”. Já anunciou que não dirigirá mais que 10 filmes e agora começará a transferir seu talento para outros suportes. Uma versão teatral de “The Hateful Eight” seria o próximo passo.



Não é difícil entender por que a crítica e a indústria americanas caíram de amores por SPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS. É um filme sóbrio, competente, que enaltece o trabalho de conjunto (de equipe e elenco); mostra uma instituição, a imprensa, agindo com independência em relação às outras e, claro, revela os bastidores de uma grande investigação jornalísitca. Foi assim com “Todos os Homens do Presidente”. SPOTLIGHT podia se chamar “Todos os Homens da Igreja”, pois expõe a Igreja Católica como uma máfia capaz de acobertar os crimes de seus membros mediante acordos financeiros, descrédito de denunciadores, cooptação de editores de jornais, chantagem religiosa e intimidações.

Depois de vários filmes sobre o assunto nos últimos anos, não há mais grandes segredos a serem revelados às plateias de hoje, a não ser numa visão retrospectiva como essa, sobre fatos de 15 anos atrás. Na verdade, SPOTLIGHT é menos um filme sobre o abuso sexual de crianças por padres do que sobre o comportamento dos jornalistas do Boston Globe durante o episódio. A posse de um novo editor judeu e determinado estaria na base de uma mudança de atitude do jornal em relação a velhas denúncias engavetadas. O resto é o making of da matéria deflagradora, com os costumeiros estereótipos de jornalistas andando e falando rápido com suas bolsas a tiracolo, comendo mal e, nesse caso, perdendo o restinho de fé que tinham no Catolicismo. Com acervos ainda não totalmente digitalizados, eles lidavam com clippings impresssos guardados em arquivos de pastas suspensas, num verdadeiro jornalismo de época.

O roteiro, elogiadíssimo, a meu ver poderia ter racionalizado melhor o volume de informações que nos chegam, especialmente na primeira meia hora de filme. Não é fácil acompanhar tantos nomes e referências cruzadas. Entre as discretas mas importantes virtudes de SPOTLIGHT está a de não artificializar a trama para dar cores de thriller de suspense. O que está na tela é apenas um árduo trabalho de levantamento de dados e convencimento de fontes. Além disso, o sucesso da investida do Boston Globe naquele momento não dissimula o histórico de “vista grossa” e conivência do jornal e da imprensa americana em geral para com os podres poderes esclesiásticos.



Pequeno filme teatral baseado em peça de Cyril Gely, DIPLOMACIA é mais uma confrontação de Volker Schlöndorff com a história da Alemanha. É sempre difícil acomodar fatos históricos decisivos com as liberdades da dramaturgia. Precisamos nos livrar de certas exigências de acuidade factual para embarcar na representação hipotética que a obra propõe. No caso aqui, a decisão de última hora que poupou Paris de ser destruída pelas explosões determinadas por Hitler como uma represália pelos bombardeios de Hamburgo e Berlim e a iminente derrota para os aliados. O episódio já fora objeto de especulação em “Paris Está em Chamas?” (René Clément, 1966), cujo foco principal estava no papel da Resistência, o que no filme de Schlöndorff aparece somente nas bordas da cena. O general nazista Dietrich von Choltitz era então vivido por Gert Froebe e o cônsul sueco Raoul Nordling, por Orson Welles.

Niels Arestrup e André Dussollier, que fizeram os papéis antes no palco,  estão à altura de seus personagens. O ponto mais delicado de DIPLOMACIA é dar a entender que todo o processo decisório se concentrou numa única noite, quando se sabe que as conversações entre Choltitz e Nordling já se estendiam por bem mais tempo. A peça e o filme condensam o período de negociação em algumas horas de batalha verbal entre os dois homens, envolvendo princípios, ideais, obediência e até a parábola bíblica de Abraão e seu filho Isaac. Outra liberdade polêmica diz respeito ao papel decisivo de um engenheiro francês obrigado pelos nazistas e dispor a dinamite em locais como o Louvre, a Notre Dame, Les Invalides, a Torre Eiffel e todas as pontes e estações de trem da cidade.

Melhor do que assistir ao filme como um documento histórico é deixar-se levar pelo seu elogio da oratória, pelos golpes de cena relativos à suíte de hotel onde se passa a ação – que teria servido aos encontros de Napoleão com uma amante – e à interação entre os dois ótimos atores. Tudo isso enquanto uma manhã de salvação se abria lentamente sobre Paris.



O FIO DE ARIANE são as férias de Robert Guédiguian. O cineasta politizado e humanista de Marselha se permite fazer “uma fantasia” inteiramente devotada a sua mulher e atriz perene, Ariane Ascaride. Na mitologia grega, Ariadne instrui Teseu a desenrolar um novelo para saber retornar do labirinto do Minotauro. No filme, Ariane se vê negligenciada por sua família no dia do seu aniversário e parte sozinha rumo à região do porto de Marselha. Vai parar num café turístico, onde interage com diversos personagens simpáticos e levemente excêntricos. Em ritmo de aventura, vai encontrar um romance, uma causa, a realização de um velho sonho e até uma tartaruga falante com que pode trocar ideias. É tudo estranhamente ingênuo e inconsistente. Guédiguian encontra um pretexto para renegar qualquer compromisso realista e brincar com referências diversas, como as canções dos engajados Jean Ferrat e Kurt Weill, e o cinema de Fellini (Ariane lembra personagens de Giulietta Masina e há uma citação explícita da Fontana de Trevi de “A Doce Vida”). A finalização da imagem carrega nos tons amarelos e a direção de arte complementa com azuis e vermelhos de sonho infantil. Uma mensagem libertária muito cândida perfuma essa recreação antes que a cena final devolva personagens e espectadores à trivialidade da vida.