Uma linda mulher

Pode-se dizer que Ingrid Bergman (1915-1982) cuidou o tempo todo da sua biografia. Ela escreveu suas memórias a pedido do filho Roberto. O livro, redigido em conjunto com o inglês Alan Burgess, saiu em 1980 e no Brasil foi editado pela Francisco Alves com o título “Ingrid Bergman – História de uma Vida”. Ali já se mostrava o cuidado de arquivista com que Ingrid guardava seus diários, cartas e fotografias. O que eu não sabia é que ela, herdando um hábito do pai, vivia com uma câmera na mão filmando a vida doméstica, os passeios e os bastidores de filmagens. Se tivesse vivido até os anos 2000, ela certamente teria dirigido seus próprios filmes. De alguma forma, o faz agora postumamente, pois é com base nesse vasto material autobiográfico que o escritor, crítico e cineasta Stig Björkman construiu o convidativo Eu Sou Ingrid Bergman.

Incluindo filmes caseiros desde os seus tempos de menina, entradas de diário desde 1929 e cenas da atriz desde 1935, o documentário dá conta da mulher que, em suas próprias palavras, parecia ter um pássaro migratório dentro de si. A timidez extravasada nas artes cênicas, as sucessivas reconstruções da vida em quatro países e com três maridos diferentes, a paixão pelo fotógrafo Robert Capa, o escândalo americano quando do casamento com Rossellini, tudo é ilustrado com um deslumbrante material visual e comentado por quem mais sofreu com suas migrações: os quatro filhos, cujas queixas em relação à mãe só são disfarçadas num visível esforço de racionalização. Transpira muita sinceridade tanto nos relatos de Ingrid como nos depoimentos dos filhos ao se recordarem de uma vida familiar marcada pelo luxo, a elegância e sentimentos conflitantes de abandono e orgulho.

Os restos visuais da vida de Ingrid permitem um acesso fascinante também a flashes de sua intimidade com diretores como Alfred Hitchcock, Jean Renoir e Ingmar Bergman. É interessante, por exemplo, ver como a relação de sua personagem com Liv Ullmann em “Sonata de Outono” reflete seu vínculo problemático com os filhos. E que mulher mais linda jamais posou para um teste como o filmado para David O. Selznick quando da chegada em Hollywood? Entre a beleza e a coragem de desafiar padrões, Ingrid Bergman, até pelo seu porte físico, passou a imagem arquetípica de uma grande, uma linda mulher. Esse filme não deixa qualquer dúvida.

Um comentário sobre “Uma linda mulher

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