Tags

Um vaqueiro apaixonado por design de moda e outro obcecado por alisar sua longa cabeleira, ambos heterossexuais. Uma mãe caminhoneira e dançarina performática. Uma vigia de fábrica que também vende cosméticos e não hesita em seduzir um quase desconhecido apesar de estar gravidíssima. Um Nordeste industrial, digitalizado e agitado pelo agrobusiness… Boi Neon bate na tela como um filme preocupado em bagunçar estereótipos, contrariar velhas expectativas sobre gênero, sexualidade, pobreza, atraso e regionalismo.

Se fosse só isso, seria muito pouco. Felizmente, é bem mais. Assim como Renata Pinheiro fez com a cena brega em Amor, Plástico e Barulho e Hilton Lacerda fez com o cabaré setentista de Tatuagem, só pra citar dois outros belos filmes pernambucanos, Gabriel Mascaro criou seus personagens como elementos de um estudo de contexto mas também como seres singulares em busca de afeto e realização.

O ambiente das vaquejadas, magnificamente explorado como iconografia e paisagem sonora, propicia uma poética especial que torna o filme único. Existe uma permanente fetichização entre pessoas, animais, objetos e máquinas, numa sensualidade que parte sempre dos odores e chega às vias de fato. A já antológica cena de sexo semiexplícita entre Juliano Cazarré e Samya de Lavor numa mesa de corte da fábrica de roupas leva ao clímax essa interação entre as várias faixas de desejo.

Boi Neon é realista na representação do cotidiano, elegante e ousado no tratamento do sexo, e sutilmente onírico na fixação dos pensares e sentires de seus personagens. As noites são lindas, fotografadas com luz de pintura holandesa. A espantosa interação entre os atores (preparados por Fátima Toledo) e o sabor dos diálogos nos divertem e comovem ao mesmo tempo. Em sua imensa originalidade e na forma delicada como nos descortina esse mundo para tantos de nós insuspeitado, o filme justifica todos os prêmios já recebidos e a admiração despertada pelo cinema pernambucano.