Creed, Gangue, Carol, Die Suffragette

Já houve quem dissesse que CREED: NASCIDO PARA LUTAR é a melhor continuação do primeiro “Rocky, um Lutador”. Rocky Balboa está velho, aposentado e dirige uma cantina italiana em Filadélfia quando é procurado por um jovem boxeador autodidata em busca de treinamento. Ele é Adonis, o filho do falecido Apollo Creed, eterno adversário e amigo de Rocky. Uma relação filial vai se estabelecer entre eles, é claro, e uma aliança com vistas ao futuro profissional do rapaz. Mas dois obstáculos atravancam esse caminho. Adonis não quer faturar no sobrenome do pai, que não chegou a conhecer. E Rocky tem problemas de saúde a enfrentar.

CREED, produzido por Stallone e dirigido por Ryan Coogler, um diretor negro vindo do cinema indie, opera em cima da mitologia de Rocky, como se ela fosse parte (e, no fundo, é) da própria mitologia de Filadélfia. Quando Balboa encaminha Adonis para o ringue com a mão paternal sobre seu ombro, é como se o cinema popular americano desse uma volta sobre si mesmo e carregasse junto o espectador. A trilha sonora de Ludwig Göransson evoca de longe a clássica fanfarra de Bill Conti, como a lembrar em que tradição cinematográfica nos encontramos.

Os três combates enfocados, especialmente o último, são empolgantes até para quem, como eu, detesta boxe. De resto, é o típico roteiro antiquado, baseado numa fórmula que se repete ad nauseam: alguém se recusa a fazer alguma coisa para logo em seguida render-se por alguma razão sentimental. Segue valendo também a regra de humildade da franquia. Vencer não é a única recompensa quando se tem honestidade e autoconfiança. Com essa imagem de homem rude e bom, Stallone leva adiante sua criação, a voz mais engrolada e a cara mais amassada do que nunca.



O ucraniano A GANGUE é interpretado somente por atores não profissionais surdos se expressando na linguagem de sinais ucraniana, sem recorrer a qualquer signo verbal nem legenda. Não há nem mesmo trilha sonora, sendo os ruídos de ambiente reduzidos ao mínimo. Assim somos colocados numa experiência imersiva impressionante. Se no início de cada cena, nos sentimos um pouco perdidos, logo somos socorridos pela lógica do filme mudo, baseada no encadeamento de espaços e de ações físicas. Mesmo a típica agitação gestual e corporal dos surdos colabora para que o ritmo se assemelhe ao do cinema silencioso. A história não podia ser mais soturna e brutal. Trata de um jovem se iniciando nos rituais de uma gangue num internato para surdos. Envolve bullying, extorsões, roubos, mercado negro, proxenetismo e tráfico internacional de prostitutas. O ambiente da escola, a distância fria da câmera e a escalada de violências sugerem às vezes um cruzamento calado de “Laranja Mecânica” com “Elefante”. Depois de se integrar ao grupo, o rapaz comete o erro de se apaixonar por uma das moças prostituídas por eles. Daí em diante, vai ter lugar uma espiral de atrocidades que inclui um aborto clandestino encenado em minúcias e um uso letal de mesinhas de cabeceira (não resisto a lembrar da expressão “criado-mudo”). Em sua radicalidade e notável domínio da expressão, “Plemya” é não apenas um exemplo de cinema corajoso, mas também o retrato de um país em estado de degradação.



O déja vu em CAROL começa já na primeira cena, quando a música de Carter Burwel emula descaradamente os acordes e harmonias de Philip Glass. Continua na sequência seguinte, quando percebemos que toda a história de amor entre a esposa sofisticada Carol (Cate Blanchett) e a balconista simplória Therese (Rooney Mara) vai ser contada no mais convencional dos flashbacks circulares. E prossegue no desenvolvimento melodramático do romance em fuga, sob o risco do escândalo social e da represália jurídica. Não resta dúvida quanto ao impacto que o romance de Patrica Highsmith (“The Price of Salt”, no Brasil “Carol”) causou em 1952 ao mostrar uma mãe que decidia assumir frontalmente seu desejo homossexual e enfrentar as consequências. Hoje, porém, depois de tanta dramaturgia sobre aceitação e repulsa à diversidade sexual, não vejo novidade nessa história relativamente banal. Todd Haynes já foi muito mais criativo e efetivo, limitando-se aqui a construir um glamour sombrio, trabalhar bem o comedimento das atrizes e traduzir o roteiro em imagens bastante padronizadas.



Depois de ver o recente “As Sufragistas”, me aventurei no vetusto DIE SUFFRAGETTE, filme alemão de 1913. Foi interessante ver um tratamento do tema pelo cinema conservador da época em que as mulheres batalhavam pelo voto e a afirmação feminina. O longa de Urban Gad, restaurado em 2012 apesar de algumas cenas irremediavelmente perdidas, também conta a introdução de uma mulher no âmbito do movimento sufragista. A superestrela do silencioso Asta Nielsen vive a jovem burguesa Nelly, cuja mãe foi “perdida” para o movimento. Esta chama-se Senhora Panburne, claramente inspirada na líder Emmeline Pankhurst, papel de Meryl Streep no novo filme. Nelly está destinada a um casamento de luxo, mas a mãe convence-a a entrar para a luta das mulheres. Ela rapidamente se torna uma líder, é presa e faz greve de fome. Ao sair da cadeia, é encarregada pela mãe de plantar uma bomba no escritório de um político adversário. Mas eis que o político é justamente o homem por quem ela era secretamente apaixonada, sem conhecer a identidade. O desfecho é o mais machista e reacionário possível: Nelly compreende que as mulheres não vão se emancipar através do crime, mas do coração. Abandona a causa, afasta-se das bruxas sufragistas (todas são retratadas como tal) e termina feliz, casada com o político e cercada de quatro filhos. A mensagem é pavorosa, mas o filme é ágil e pouco caricato em comparação com outros do período. A manipulação do tempo real e a contagem regressiva para a explosão da bomba conseguem até hoje mobilizar o espectador.

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