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O colega crítico Marcelo Lyra deu-se ao trabalho de ler o livro Quando o Caso É de Cinema, a Paixão é um Festival, de Alfredo Bertini, atual Secretário do Audiovisual do MinC golpista. Mais que isso, ele ofereceu uma análise perspicaz e circunstanciada das ideias constrangedoras de Bertini a respeito do cinema, quem sabe agora instituídas como política cultural do desgoverno Temer. O texto – longo mas de ótima leitura – foi publicado no Facebook de Marcelo, mas compartilho aqui pelo seu valor de esclarecimento sobre o estado da cultura entre nós. Com sua anuência, retirei um trecho em que Marcelo se estende mais a respeito do Cine PE.

A ARTE DE AMAR CINEMA SEM AMAR FILMES

por Marcelo Lyra 

Esta é uma crítica ao livro “Quando o Caso É de Cinema, a Paixão é um Festival”, de Alfredo Bertini, criador e diretor não assumido (atualmente quem responde oficialmente é sua mulher Sandra) do Cine PE, festival de cinema do Recife. Acho que para meus amigos do meio cinematográfico, pode ser interessante saber o que pensa e como age o homem que hoje comanda a política cinematográfica do Brasil, ocupando o cargo de secretário do Audiovisual, mesmo sem ter conhecimento e capacidade para tanto. Para quem não é do meio, acho interessante observar como um livro é escrito para tentar mostrar a todos seu amor pelo cinema e o resultado, na prática, acabe sendo a prova de que esse amor não existe, ou seja, que seu autor é mesmo um empresário que viu no cinema a chance de ter prestígio e ganhar dinheiro.

Nesse texto, vou procurar mostrar todos os momentos em que ele mesmo se entrega, evitando juízos de valor e remetendo sempre às páginas do livro em questão. Deixo claro que não é um problema ser empresário e querer ganhar dinheiro com cinema. Raquel Hallack, diretora do Festival de Tiradentes, é igualmente empresária sem grandes conhecimentos cinematográficos. Mas ela logo percebeu a importância da seriedade na escolha dos filmes em exibição. Para tanto contratou um crítico de cinema conhecido e respeitado, Cléber Eduardo, para a curadoria. Isso é sinal de respeito para com o público que frequenta o festival, para a formação desse público e para que o festival cumpra sua função de ser um espaço para a exibição e discussão de filmes, de linguagem e, principalmente, de divulgação cultural.

Acho que festivais têm de agir assim também por respeito com o dinheiro público usado na realização do festival, captado por intermédio das Leis de Incentivo. Não por acaso, Tiradentes é referência nacional quando o caso é de cinema, enquanto o Cine PE é apenas um festival que é referência quando o caso é de festa.
O objetivo aqui não é denegrir a imagem de Bertini, mas torcer para que ele corrija seus rumos e conceitos de cultura, o que seria ótimo para Pernambuco, para o próprio Cine PE e também para a Secretaria do Audiovisual. Pessoalmente, acho pouco provável que isso ocorra.

(…)

Logo de cara, esse título esquisito “Quando o caso é de cinema, a paixão é um festival”. Os amigos que o cercam devem ter achado genial e assim ficou, mas não faz muito sentido. Na primeira página, ele dedica sua ‘obra’ ao “Rei Pelé”, assim mesmo, com aspas, seguido da justificativa “que sem saber das minúcias de uma história pessoal, transformou-se num personagem vital de todo o enredo, o que reforçou a minha idolatria por esse mito universal”. Sem querer, ele já começa a entregar suas limitações, o que vai ser uma característica do livro todo. Um diretor de festival de cinema que dedica seu livro sobre cinema a um jogador de futebol só mostra como é de fachada sua propalada paixão pelo cinema. E o que ele quer dizer com “sem saber das minúcias de uma vida pessoal…”? Pelé deveria saber de sua existência?

No livro é dito que a tentativa frustrada de trazer Pelé para um evento no Recife fez com que Bertini conhecesse Aníbal Massaini, produtor que o introduziu no mundo cinematográfico, mas por conta desse acaso ter toda a gratidão pela existência do festival é mais uma prova da limitação cultural de seu realizador.
O livro é de uma verborragia abundante, sempre dizendo em cinco linhas o que pode ser dito em uma, introduzindo cada assunto com explicações aborrecidas e informações que geralmente só interessam a ele. Mas vou deixar isso de lado e me ater apenas aos momentos que evidenciam sua falta de ligação com o cinema e consequente incapacidade para o cargo que ocupa.

Na página 17 ele afirma “A tarefa de escrever um livro não corresponde a um mérito individual. Afinal, toda forma de expressão de arte (sic) depende fundamentalmente de uma série de pessoas e instituições”. Não vou comentar a pretensão de considerar seu livro uma ‘expressão de arte’. O que importa é que no mundo real poucas expressões artísticas dependem de uma série de pessoas. Para pintar um quadro, o artista plástico depende só dele. Bastam uma tela e tinta. Um músico em casa, compondo uma melodia, depende de quem? Manuel Bandeira dependia de alguém para escrever poesias? Bertini certamente escreveu isso porque, em sua simplicidade, ouviu os diretores de cinema afirmando nos festivais que filmes dependem de uma série de pessoas (o que é verdade para o cinema, e Orson Welles já dizia isso), achou bonito e resolveu repetir a frase, incapaz de entender que na literatura ela não faz sentido.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, as lembranças da juventude e o surgimento da ‘paixão’ pelo cinema, que veremos só existir nas palavras. Na segunda parte, detalha-se como o festival surgiu.

Gosto refinado

O lema do livro é algo como faça o que escrevo, não o que eu faço. Falando sobre sua juventude, lamenta não ter idade para participar das manifestações dos festivais contra a ditadura militar nos anos 60 (pág 24). Na prática, o que vemos é que Bertini foi dos primeiros a pular nos braços do governo Temer assim que este tomou o poder, ganhando como prêmio a Secretaria do Audiovisual.

Na mesma página lembra sua professora do ginásio (atual ensino fundamental), que lhe teria proporcionado “o gosto refinado para ler e escrever de forma diferenciada”. ‘Dom Casmurro’ teria sido sua “estreia entusiasmada” na literatura. E disso teria resultado sua “preocupação permanente com o estilo e a gramática”. Essas afirmações não resistem à leitura de uma página do livro, como veremos a seguir.

Ele conta que sua introdução no mundo do cinema ocorreu aos dez anos de idade, quando o pai, depois de um jogo do Sport, o levou ao cinema para assistir ao documentário “Brasil Bom de Bola”, de Carlos Niemeyer, sobre a conquista da Copa do Mundo de 1970. Anos depois teria assistido a “Isto é Pelé”, de Luiz Carlos Barreto. Assim teria surgido sua paixão pelo cinema: assistindo dois documentários de futebol.

Segundo o livro, ao assistir aos trailers dos filmes estrangeiros (repito, os trailers, não os filmes, nem isso ele assistiu), odiou ter que ler as legendas. Afirma isso duas vezes na página 28 e mais duas vezes na página 29. E a seguir tenta atribuir a esse repulsa às legendas a corresponsabilidade por sua defesa do cinema nacional. Ou seja, ele gostava de filme brasileiro por preguiça de ler as legendas, mesmo que poucas páginas antes garantisse que a leitura de Dom Casmurro foi sua ‘estreia entusiasmada na literatura’.

Para que filmes?

Nas páginas 30 e 31, fala de sua paixão pelas salas dos antigos cines Atlântico e Trianon. Diz que os frequentava, mas não cita um filme que tenha sido marcante. Suas referências a cinema são salas de exibição, festivais e até passeios para compras em Tiradentes (págs 93 e 94). Nunca filmes. É um caso curioso de paixão por cinema que não envolve filmes.

Mais adiante, lembra que o pai o levou a conhecer a sala de projeção do Cine Trianon e ele lembra muito do projetor, mas nada dos filmes que teria assistido. Conta que conheceu o projecionista, que era “grisalho, sempre de barba por fazer e que gostava de tomar umas doses a mais”. Compara a relação dos dois com a do menino e o projecionista de “Cinema Paradiso”. Finalmente, depois de quase um terço do livro percorrido, Bertini cita um filme de ficção.

O tal projecionista o teria ensinado a fazer um pequeno projetor de brinquedo, com uma caixa de sapatos, pedaços de filme e uma lâmpada. Ao fazer o projetor, o menino Bertini não pensa em mostrar cinema para os amigos mas anima-se com a possibilidade de “Chamar a vizinhança e cobrar ingressos” (página 33). Ou seja, desde pequeno, o interesse pelo cinema era financeiro, não cultural.
Na adolescência, exalta o prazer de fazer conchavos com o porteiro do cinema para assistir a pornochanchadas. Novamente não cita filmes, apenas o desejo de ver Vera Fischer nua (pág 35).

Nada de blockbuster

Já adulto, afirma: “os cinemas de ponta raramente permitiam assistir filmes de Fellini, De Sicca (sic), Gasman (sic), Antonioni ou Bergman, cujos filmes para mim já eram bem mais atraentes do que os ‘blockbusters hollywoodianos’”. Vale lembrar que nos anos 70, os blockbusters hollywoodianos não eram tolices comerciais como agora, mas muitas obras-primas como “O Poderoso Chefão”. Deixemos de lado o fato dele incluir o ator Gassman (que até dirigiu filmes, mas poucos e sem destaque) em meio a diretores importantíssimos. Pelo que deu para sentir até agora em seu livro, é difícil acreditar que ele gostasse tanto desses diretores. Mais parece que os citou para impressionar. Tanto é que não cita sequer um filme deles. Gostaria muito de ver um debate de algum crítico com ele sobre a obra desses quatro diretores.

Na página 37, finalmente começa a falar da criação do Cine PE. Em 1994, como secretário adjunto de Indústria, Comércio e Turismo do estado de PE, soube que Pelé tinha se casado com uma pernambucana e que estava lançando uma feira com seu nome em São Paulo. Viajou para lá numa tentativa frustrada de atrair o evento para Recife e acabou conhecendo Aníbal Massaini, da Cinedistri, segundo ele “produtora de muitos filmes que assisti no cine Atlântico”. Novamente não cita filmes, mas sabia qual era a produtora deles.

Não conseguiu levar para Recife nem Pelé nem o evento, segundo ele porque “aspectos como a composição societária e o mercado não davam muita margem de confiança para conquistar o projeto” (pág 39), seja lá o que isso quer dizer. Frases como essa povoam o livro do homem que tem ‘preocupação permanente com o estilo e a gramática’. Uma coisa se pode afirmar: ele é muito bom na arte de falar muito sem dizer nada.

Muito hábil também na arte de se aproximar de pessoas com algum poder do qual possa tirar proveito, tratou de ficar amigo de Massaini, oferecendo-se para facilitar a captação de recursos em Pernambuco para o remake de “O Cangaceiro”, que estava em fase de pré-produção. Claro que Massaini topou e começou aí uma pequena parceria.

Detalhe: Bertini refere-se a “O Cangaceiro” de Lima Barreto como “Uma obra prima vencedora do Festival de Cannes na década de 50”. Essa é a única vez que dá opinião sobre um filme no livro inteiro (isso num livro sobre cinema), e já comete dois equívocos na mesma frase. “O Cangaceiro” não ganhou o prêmio principal de Cannes, mas sim o prêmio da categoria “Melhor filme de aventura”, o que é bem diferente.

Depois, quem conhece um mínimo de cinema sabe que “O Cangaceiro” está bem longe de ser uma obra-prima. Trata-se de uma imitação do estilo dos faroestes americanos (até os índios são mostrados como os americanos, e os tiroteios seguem a receita de Hollywood). É um filme sem personalidade, bem feito e só.

Mais adiante, afirma que “cansou de ver filmes da Cinedistri do Massaini” (pág 43) no Recife. Não conheço nenhum cinéfilo que diga “Cansei de ver filmes do Fellini”. Eu mesmo jamais diria “Cansei de assistir a filmes do Hitchcock, embora tenha assistido a todos mais de uma vez e anos atrás revisto todos de novo para preparar um curso sobre ele. Mas como Massaini produziu muitas pornochanchadas, incluindo “A Super Fêmea”, que trazia Vera Fischer nua, pode ser isso o ‘cansei de ver’.

De qualquer forma, o ‘cinéfilo’ Bertini lembra a produtora dos filmes que cansava de ver, mas não cita nenhum filme. Já quando fala de Pelé, Bertini cita até a sala do hotel Sheraton, em SP, onde o encontrou (pág 39).

Como uma mão lava a outra, recentemente Bertini, já como secretário do Audiovisual, indicou Osvaldo Massaini Filho para dirigir a Cinemateca Brasileira. Como bagagem cinematográfica, Osvaldo cansou de produzir pornochanchadas: produziu como assistente ou produtor executivo apenas três filmes na vida, todos pornôs, alguns com nomes bem sugestivos para o atual momento político brasileiro, como “Os Bons Tempos Voltaram, Vamos Gozar Outra Vez”.

Uma mão lava outra

Resumindo, Massaini obteve apoio em Pernambuco para fazer seu filme e, como uma mão lava outra, conseguiu um convite para Bertini conhecer o Festival de Gramado, no que viria a ser a gênese do Cine PE. Acho curioso que um produtor tenha poder para indicar convidados para Gramado, mas deixemos isso de lado. O que importa é que Bertini foi a Gramado e nas lembranças da viagem fala apenas que “Conheceu de perto a força do evento, particularmente no sentido econômico e na visão de marketing” (página 44). Nem uma linha para falar dos filmes a que assistiu, debates de que participou. Na mesma página, a gênese do Cine PE: “Ao conhecer a apresentadora do festival, Vera Armando, ela fez a pergunta fatal: ‘Porque Recife não tem festival de cinema?'”. A ficha caiu, provavelmente com o “tlin!” de uma caixa registradora. Modestamente ele afirma “Uma via difícil e bastante tortuosa se desenhava na minha frente. Só mesmo a obstinação e a vontade de empreender foram capazes de me estimular”.

Segunda parte: ‘causos pitorescos ou engraçados’

A segunda parte do livro limita-se a contar histórias que ele considera engraçadas ou pitorescas. É a maior parte do livro (54 páginas, contra 44 da primeira, contando só o que é escrito por ele).

São quinze historinhas que ele considera hilárias, sem entender que muita coisa só tem graça na hora, para quem viveu. Contadas depois, perdem a graça. Por exemplo, num traslado de convidados do cinema para o hotel, tarde da noite, alguém foi ao banheiro do ônibus com dor de barriga e um cheiro se espalhou pelo ambiente. Segundo ele, foi hilário esperar para ver quem era o ‘autor intelectual daquela obra’ (pág 81). Ele nem deveria rir disso. O sujeito provavelmente passou mal com comida fornecida pelo festival.

Há uma segunda história envolvendo gases intestinais, dessa vez ocorrida no festival de Tiradentes, durante um passeio de compras.

A maioria dos causos são incidentes como o carro enferrujado da produção ser parado pela polícia e o motorista reclamar da organização pelo rádio, sem saber que Bertini estava próximo ouvindo, ou quando conta que, em Gramado, chamava a produtora Liege Nardi de ‘Lombardi’, porque sabiam que ela existia, mas nunca era vista. Coisas realmente muito engraçadas e pitorescas.

Quando as histórias envolvem confusões com nomes trocados, ele só conta as ocorridas em outros festivais, o que não deixa de ser mais um traço da sua personalidade se revelando. Por exemplo quando o Festival de Vitória colocou no mesmo quarto o Sr. Francisco e um tal de Clóvis (em festivais, é comum que dois convidados dividam o mesmo quarto). Só depois foram perceber que o Clóvis na verdade era Cloris, a diretora do festival de Curitiba (pág 86). Ou, no festival Guarnicê (Maranhão), a apresentadora chama “o Sr. Fulano, do Rio de Janeiro, e o diretor do festival corrige ao vivo “Ele é do Ceará”! Aqui posso dar um testemunho: eu pessoalmente vi falhas parecidas nas cinco ou seis edições do Cine PE que frequentei. Mas Bertini prefere contar falhas dos outros.

Também não há uma linha sobre Isaac Kelner, sócio que ele tinha nos primeiros anos do festival e que ajudou na criação do evento. O nome dele nem é citado. Depois que Isaac morreu houve algum desentendimento com a família, pois o evento, que se chamava Festival de Cinema do Recife, teve que mudar o nome para Cine PE. Nem para explicar porque o festival mudou de nome o livro serve.

Pimenta no dos outros…

Quando vai contar uma falha ocorrida com o Cine PE ele faz questão de justificar bastante antes. Em 2003, Hugo Carvana ficou irritadíssimo com o atraso de mais de uma hora na exibição de seu filme “Apolônio Brasil”, que fez com que quase duas mil pessoas desistissem de esperar e fossem embora. Na hora da apresentação, Carvana criticou duramente a organização. Antes de contar essa história, Bertini gasta duas páginas para explicar o atraso, culpando o trânsito e (inacreditável!) a “baixa disciplina por parte dos convidados no cumprimento dos horários”. Culpa os convidados duas vezes, nas págs 104 e 105. Ou seja, a culpa é do trânsito e dos convidados que atrasam tudo, nunca dele.

O mais curioso é que segundo ele a equipe do festival tentou impedir a debandada do público explicando a importância do filme, mas o próprio Bertini não viu a cena, pois ele mesmo, o apaixonado por cinema, tinha ido embora descansar “antes que a nitroglicerina pura se esvaísse” (pág 107). Acho que ele queria dizer ‘antes que a nitroglicerina explodisse’. No prefácio assinado por Maria do Rosário Caetano, a história já tinha sido contada, também passando panos quentes, pois tudo teria ficado bem no dia seguinte, quando Carvana se desculpou na coletiva.

Em uma das edições, o homenageado foi justamente Pelé. Que festival de cinema é esse que em uma edição homenageia um jogador? Isso só é mais uma prova de que o Cine PE atende mais aos interesses políticos e financeiros de seu idealizador.

Resumindo, todo o livro parece um esforço de Bertini no sentido de mostrar sua paixão pelo cinema, mas o que mais se percebe é a total ausência dessa paixão. Trata-se de um empresário que viu no cinema uma forma de ganhar dinheiro.

Marcelo Lyra