Festival do Rio: Ex Libris + Avisem que Estamos Chegando

Assisti a esses dois documentários em sessões consecutivas, razão pela qual sou levado a abordá-los em paralelo. Ambos tratam de educação nos EUA e anunciam já no título a totalidade de suas intenções. EX LIBRIS: BIBLIOTECA PÚBLICA DE NOVA YORK é um típico filme de Frederick Wiseman, ou seja, um mergulho observacional no funcionamento de uma grande instituição. AVISEM QUE ESTAMOS CHEGANDO: A HISTÓRIA DAS UNIVERSIDADES NEGRAS é um típico filme de Stanley Nelson, isto é, um dossiê de corte televisivo sobre uma questão histórica ligada à população afro-americana.

Wiseman, como sempre, faz um filme completamente fincado no presente. Sua câmera discreta nos coloca dentro de reuniões internas da direção da NYPL – onde se discute basicamente a obtenção de recursos públicos e privados – e nas atividades das diversas filiais espalhadas pelos bairros de Manhattan, Brooklyn e Bronx. O que ressalta é a admirável diversidade de propósitos da Biblioteca, para além do senso comum de um “depósito de livros”.

A NYPL tem um compromisso vital com a comunidade nova-iorquina. Quer ser um centro de educação e circulação de ideias no sentido mais amplo possível. Isso inclui desde concertos musicais e palestras com astros da literatura, das artes e das ciências até reuniões para discutir questões da vida nos bairros, geração de empregos, acessibilidade para os descamisados digitais, atendimento a portadores de deficiência, complementação de estudos escolares para crianças e, claro, o atendimento em diversos suportes. “A Biblioteca não pode falhar”, eis o mote da equipe.

Enquanto o orgulho de muitas bibliotecas repousa no volume de livros e na raridade de muitos deles, o da NYPL – a julgar pelo que Wiseman nos serve – é o envolvimento profundo com o seu público, num misto de acolhimento, respeito e estímulo. EX LIBRIS não é um filme sobre o acervo da Biblioteca, mas sobre sua inserção na paisagem humana e social de Nova York. É o que transparece, por exemplo, na ênfase em mostrar a diversidade étnica dos frequentadores e funcionários. Os simples closes de rostos de usuários na plateia de palestras ou nos salões de pesquisa conformam uma espécie de retrato muralístico da cidade.

A duração de 197 minutos atende a um desejo de abrangência que poderia ser minimizado. Algumas situações e discussões se repetem; um ou outro trecho de palestra poderia ser suprimido sem prejuízo do conjunto. Mas quem seria o montador com acesso e coragem suficientes para editar mestre Wiseman?

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Ao passo que o cinema direto de Wiseman dispensa entrevistas, depoimentos diretos para a câmera, citações e materiais de arquivo, o documentário expositivo mais tradicional de Stanley Nelson se ampara em todos esses recursos. O modelo é o habitualmente usado pela PBS, a televisão pública americana, no sentido de oferecer narrativas didáticas sobre os temas abordados. Neste caso, a evolução dos negros americanos no sistema educacional.

Remontando à época escravocrata, quando todo acesso à alfabetização era negado aos escravos, Nelson monta uma linha do tempo que passa pelas lutas antissegregacionistas e a formação das primeiras e históricas faculdades e universidades negras (HBCUs). Heróis célebres e anônimos de cada etapa formam o caminho de pedras que leva até as mais de 100 HBCUs hoje em atividade. Vencer preconceitos não foi necessário somente em relação aos brancos, mas a um negro como o pioneiro educador Booker T. Washington, que reiterava a inferiorização de sua raça ao propor um ensino voltado para o trabalho e a servidão.

O título AVISEM QUE ESTAMOS CHEGANDO (Tell Them We Are Rising) se refere ao alerta de um ativista para a iminência de uma intelectualidade negra na primeira metade do século XX. Vários senhores e senhoras que depõem no filme foram alunos de HBCUs e participaram de campanhas e protestos pelos direitos civis nos anos 1960 e 70.

Stanley Nelson conclui o filme com uma celebração do esplendor e da verve de uma universidade negra na atualidade. Soa como um final bastante acrítico, de pura exaltação da auto-estima. É difícil crer que os conflitos raciais e o crescimento da intolerância que têm abalado os EUA no governo Trump não estejam se refletindo nas faculdades afro-americanas.

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