Brincando com gêneros e etnias

Sobre A GUERRA DOS SEXOS e DOENTES DE AMOR

A célebre rivalidade entre os tenistas Billie Jean King e Bobby Riggs, que culminou na partida chamada de “Batalha dos Sexos” em 1973, já havia sido contada no filme “When Billie Beat Bobby”, de 2001, dirigido por uma mulher, Jane Anderson. Agora foi a vez do casal Valerie Faris e Jonathan Dayton trazê-la para um contexto mais contemporâneo em A GUERRA DOS SEXOS, valendo-se da agilidade e da simpatia trazidas de seus zilhões de music videos.

Além do episódio aparecer mais uma vez como decisivo no calendário feminista – pelo menos nos esportes –, o filme enfatiza a questão da identidade sexual. A batalha de gêneros, personificada por Billie e Bobby, é colocada em paralelo à descoberta da homossexualidade por parte da tenista campeã. Ou seja, num só saque são lançadas no ar a liberação das mulheres e a promessa da liberação gay.

No entanto, A GUERRA DOS SEXOS tem aspirações maiores do que sua raquete é capaz de alcançar. A proposta de comédia romântica limita bastante o alcance político da reconstituição. As caricaturas do machismo se multiplicam sem qualquer sutileza e, por isso mesmo, não chegam a divertir. A dramaturgia é bastante ligeira, o que se nota, por exemplo, na cena implausível da primeira sedução de Billie pela cabeleireira ou na inexplicável depressão do fanfarrão Bobby após a partida.

Ou seja, não passamos dos limites de um entretenimento esquemático, ainda que quase sempre agradável. No fundo, tudo acaba se reduzindo a uma competição, como de praxe na dramaturgia tipicamente americana. A política se resolve na quadra.

Três observações:

  1. Notícias de 2013 deram conta de que a derrota de Bobby teria sido combinada para saldar suas dívidas com a Máfia.
  2. Numa época de queima de sutiãs, é justamente um sutiã que tem papel decisivo na trama sentimental.
  3. Por que não traduzem “service” por saque, que é o nosso termo usual?


DOENTES DE AMOR talvez esteja criando uma variante inédita de comédia romântica: aquela que só se sustenta quando os dois protagonistas não estão juntos. Baseia-se na história real do ator paquistanês Kumail Nanjiani e de sua mulher, a americana Emily V. Gordon, que escreveram o roteiro: como venceram os códigos do casamento arranjado da família dele e os preconceitos anti-muçulmanos da família dela.

O filme de Michael Showalter tem despertado uma simpatia que eu não consigo partilhar. Estamos falando de uma dramaturgia muito explorada nos anos 1980, principalmente na Inglaterra. Casais enfrentando barreiras culturais e da micropolítica para realizar uma união entre Ásia e Ocidente. DOENTES DE AMOR é um desfile interminável de déja-vus em torno do candidato fracassado a comediante, choques entre o rapaz paquistanês e sua família à mesa de jantar, e ainda o indefectível suspense clínico quando Emily fica à beira da morte por causa de uma doença rara e súbita.

Ok, já temos aí material suficiente para uma sessão de bocejos, mas o mais grave não é isso. Quando estão juntos, Kumail Nanjiani e Zoe Kazan (sósia de Marisa Orth jovem) mergulham o filme numa pasmaceira sem fim. O romance se arrasta através de diálogos sem graça e uma filmagem desprovida de qualquer imaginação. As coisas melhoram quando a moça fica em coma induzido e entram em cena os seus pais, vividos com boa dose de comicidade por Holly Hunter e Ray Romano. Considerando as relações de Kumail com as duas famílias, encontramos a semente de um novo subgênero: a história de amor em que o amor fica em segundo plano para que brilhem os pais dos amantes.

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