Famílias, famílias

Sobre MARE NOSTRUM e 10 SEGUNDOS PARA VENCER

A metáfora, vocês verão, se justifica. MARE NOSTRUM é um álbum de figurinhas que vamos completando gradativamente enquanto assistimos ao filme. E as últimas lacunas só vão ser preenchidas nas derradeiras tomadas, inclusive quanto ao título.

Depois de um prólogo em que dois homens negociam in loco a venda de um terreno, enquanto seus filhos aguardam nos respectivos carros, saltamos de 1982 para 2011. Os dois meninos, já trintões, retornam de um período vivido no exterior. Roberto (Silvio Guindane, certeiro como sempre), jornalista esportivo, foi expulso da Espanha pela crise econômica e tem um projeto de livro sobre um craque injustiçado na Copa de 82. Mitsuo (Ricardo Oshiro), ex-operário dekassegui, voltou do Japão depois de arruinado pelo tsunami de Fukushima. Ambos encontram suas famílias em má situação financeira e vão entrar em contato por conta do tal terreno.

Embora tudo gire em torno de dinheiro, MARE NOSTRUM mantém o foco nas relações de confiança e afeto entre as pessoas. Num roteiro bem estruturado, com bons diálogos e uma gramática visual clara, o diretor Ricardo Elias sustenta as várias pontas da história até um desfecho doce-amargo capaz de enternecer o espectador. A entrada de suposições mágicas no enredo não chega a perturbar o compromisso que o filme assume com o balanço de ganhos e perdas da vida.

Ricardo Elias (dos premiados De Passagem e Os 12 Trabalhos) buscou inspiração em filmes de Yasujiro Ozu e Hirokazu Kore-eda para contar essa história parcialmente autobiográfica com mão delicada e estilo simples. O sentido de família é dramatizado em várias instâncias, nem todas amáveis e desinteressadas. E para além das famílias, há os amigos, como o corretor de imóveis interpretado com verve impagável pelo veterano Carlos Meceni.

As imagens serenas e evocativas de Hélcio “Alemão” Nagamine são fundamentais para a eficácia desse pequeno belo conto de sobrevivência.

Leia mais sobre o filme nessa reportagem de Maria do Rosário Caetano.



“Sentimental eu sou, eu sou demais”. A velha canção interpretada por uma cantora em cena de 10 SEGUNDOS PARA VENCER parece se referir ao próprio filme. A biografia do nosso mais célebre pugilista é narrada como uma sucessão de eventos sentimentais, mais que de embates nos ringues. Desde menino, Éder Jofre tem que se decidir entre o boxe e o desenho, o boxe e o amor, o boxe e a família. O boxe ganha todas por nocaute, mas ao preço de muitas lágrimas e momentos emocionalmente solenes.

Daniel Oliveira convence dentro e fora das quatro cordas. Só é sobrepujado pelas nuvens de fumaça dos cigarros do pai e treinador obsessivo Kid Jofre, em atuação memorável (e premiada em Gramado) de Osmar Prado. O filme de José Alvarenga Jr. tem produção caprichada e fotografia requintadíssima de Lula Carvalho, mas tropeça em facilidades típicas de cinebiografias muito convencionais. As alterações súbitas na performance de Éder depois de ouvir palavras do pai no intervalo das lutas soam excessivamente “mágicas”, chamando atenção para a receita açucarada de todo o projeto.

De maneira geral, as cenas do ringue se saem melhor que as demais. A passagem de Éder pelos EUA, por exemplo, naufraga na caricatura, enquanto várias sequências familiares apelam a clichês de sentimentalismo à italiana. Este é mais um longa brasileiro pautado pelo selo de “filme de qualidade”, com suas virtudes e limitações.

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