Arte visceral, polícia e mistério

OS ÚLTIMOS DIAS DE COPACABANA JACK

Na virada dos anos 1960/70, o artista plástico luso-brasileiro Artur Barrio assustou as cidades do Rio e Belo Horizonte com sua obra Trouxas Ensanguentadas. Ele deixava nas ruas fardos contendo carne, ossos, pedaços de unhas e dejetos diversos, os chamados “objetos deflagradores”. A ação virou caso de polícia e tinha um sentido político na relação com as mortes causadas pela ditadura pós-AI-5 (leia mais sobre o assunto).

O fotógrafo experiente e diretor estreante Rob Curvello inspirou-se em Barrio para criar OS ÚLTIMOS DIAS DE COPACABANA JACK, um filme de arte visceral, polícia e mistério. A ação se passa nos últimos dias da boate Help, em 2010, quando Copa perdeu um dos símbolos do seu submundo. No filme, o Rio de Janeiro está assombrado pela violência: ônibus incendiados, guerra entre traficantes e policiais, prostitutas desaparecendo, suspeita de que um serial killer está agindo em Copacabana.

Como se isso não bastasse, os fardos ensanguentados aparecem dia após dia nas ruas do bairro. Seriam restos humanos?

As perguntas se acumulam através do rádio e da televisão, enquanto testemunhamos a rotina solitária de um homem maduro (Armando Pahl, razoavelmente parecido com Artur Barrio). Ele fatia e arruma metodicamente pedaços de carne em sua geladeira, em recipientes codificados. Guarda o lixo em sacos plásticos. Tem tiques nervosos, uma boneca que acaricia regularmente e um monitor de imagens com o qual parece observar alguma coisa. O mistério se adensa dentro e fora do seu apartamento.

Com poucos recursos, mas com muito senso de estilo e atmosfera, Curvello realizou um thriller expressionista sobre a suspeita. Não há um diálogo sequer em todo o filme, que se constrói apenas visualmente e com a mediação dos noticiários do rádio e da TV. A personalidade do homem se revela pouco e aos poucos, através de sinais como uma cena de O Gabinete do Dr. Caligari, livros de Nietzsche e anotações esparsas num caderno.

O que mais claramente se apresenta, porém, é uma visão privilegiada de Copacabana. Uma Copa não só de avenidas e praias diurnas lotadas, mas principalmente de recantos e madrugadas ermas. Uma Copa expressionista de verdade, captada pelas lentes do mestre Antonio Luiz Mendes. A montagem de PH Souza (também produtor executivo) forjou uma suíte de pequenas surpresas, sustos e fragmentos curiosos das ruas, enquanto a banda sonora mantém o permanente clima de inquietação.

A alguns poderá parecer que o filme patina um pouco em seus minutos centrais, à espera de que a trama evolua mais consequentemente. O fato de que dei uns pitacos no roteiro de Rob Curvello – motivo do crédito exagerado de “consultor de roteiro” – não me impede de apontar esse risco na narrativa. No entanto, a curiosidade que o filme desperta, para além de sua modéstia, justifica todo interesse.

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