Degeneração de uma utopia

NÃO DEIXE RASTROS (filme lançado diretamente na TV em 2019)

NÃO DEIXE RASTROS (Leave No Trace) é o tipo de filme que fala pouco, mas diz muito. A história, baseada num romance, por sua vez inspirado em fato verídico, é pouco mais que um fiapo.

Um pai e sua filha vivem isolados da civilização num parque nacional, dormindo sob tenda de plástico, comendo cogumelos e bebendo água da chuva. Encontrados pela polícia, são levados para uma fazenda do serviço social e viverão, a partir daí, uma aventura de inadaptação que será determinante para o futuro dos laços obsessivos que os unem.

No pano de fundo, o filme de Debra Granik desenha uma série de observações sobre as forças que formam a sociedade americana. A começar pela condição de Will (Ben Foster), um viúvo e veterano de guerra tomado por uma síndrome de intolerância à vida social. Não há grandes pistas para identificarmos a origem dessa patologia, a não ser um recorte de jornal sobre ajuda a veteranos com tendências suicidas.

A fazenda para onde são enviados Will e a filha Thom (Thomasin Harcourt McKenzie) é um laboratório de enquadramento de desajustados aos padrões de uma América rural conservadora. Pela lógica da integração, “é preciso encaixar-se para ser independente”, como explica a assistente social. Em contrapartida, mais adiante em seu périplo eles vão ser acolhidos por uma comunidade alternativa – provavelmente de ex-hippies – que representa um resquício de resistência de ideais hoje completamente marginais.

Na relação neurótica entre pai e filha está refletido o vácuo inevitável entre duas gerações separadas por um trauma. O roteiro pontua com muita sutileza a gradual contestação da garota à patologia do pai até um final discretamente emocionante.

Debra Granik se projetou há nove anos com outro filme sobre pai e filha em ambiente inóspito, Inverno da Alma (Winter’s Bone). Sua direção é calma e meticulosa, distante de qualquer espetaculosidade. A floresta é filmada com um olhar ambivalente, que exprime ao mesmo tempo sua beleza e seu caráter ameaçador.

No fim das contas, NÃO DEIXE RASTROS resulta um estudo razoavelmente complexo da degeneração de uma utopia (a de Walden) e seu choque com a realidade.

(Filme visto na internet)

Um comentário sobre “Degeneração de uma utopia

  1. Pingback: Meus filmes preferidos em 2019 | carmattos

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