A vocação nazista para a derrota

JOJO RABBIT

Quarenta anos antes de JOJO RABBIT, Volker Schlöndorff adaptou para o cinema o livro de Günter Grass, O Tambor. Era a fábula de um menino alemão que se recusava a crescer e, durante a ascensão do nazismo e a II Guerra Mundial, batia seu tambor como um alerta contra a estupidez e a passividade do seu povo. JOJO RABBIT, um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme este ano, faz um contraponto curioso com aquela história. Aqui o pequeno Jojo amadurece à medida que vai trocando seu fanatismo infantil por uma estranha dor chamada amor.

Não se trata de comparar os dois filmes. O Tambor era um exame profundo da mentalidade de uma classe média que sustentou Hitler. A comédia do neo-zelandês Taika Waititi, filmada na República Tcheca, pretende somente satirizar a bestialidade nazista enquanto constrói seu pequeno conto de tomada de consciência.

Aos dez anos de idade, Jojo Bletzer, apelidado Rabbit, tem um Adolf Hitler bufão como seu amigo imaginário. O próprio diretor faz esse papel numa chave que lembra Sacha Baron Cohen (Borat). O sonho do menino é entrar para a Juventude Hitlerista, mas lhe faltam “atributos” de maldade para isso. Sua mãe, vivida por Scarlett Johansson em versão palhaça, mantém atividades estranhas para os padrões nazistas, como esconder uma jovem judia em sua casa. A interação desta garota com Jojo vai colocá-lo em conflito com seu amigo imaginário.

Como em A Vida é Bela, os horrores do nazismo e da guerra são apresentados em meio a gracejos e sentimentalismo. Em alguns momentos isso soa incômodo e reprovável. Mas o roteiro de Waititi e Christine Leunens, mediante ótimos diálogos e gags ácidas, consegue quase sempre reverter a impressão e fustigar os preconceitos, a ignorância e a vocação dos nazistas para… a derrota. O filme, indicado a seis Oscars e vencedor do Bafta de roteiro adpatado, vai dialogar bem com uma plateia brasileira que vive hoje sob a égide da mais completa estultice.

2 comentários sobre “A vocação nazista para a derrota

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